A construção do projeto Europeu na Croácia

09-05-2025
Bandeiras da Croácia e da União Europeia hasteadas no Ministério dos Negócios Estrangeiros e Assuntos Europeus em Zagreb. Autor: Bogdan Giuşcă
Bandeiras da Croácia e da União Europeia hasteadas no Ministério dos Negócios Estrangeiros e Assuntos Europeus em Zagreb. Autor: Bogdan Giuşcă


Autora: Carolina Correia


Introdução

O projeto europeu representa um dos fenómenos políticos mais ambiciosos da história contemporânea, com o objetivo de uma integração económica, política e social entre os Estados europeus, sendo hoje representado pela União Europeia. Este projeto iniciou-se em 1951 com a criação da CECA, que evolui para CEE em 1957 e em 1992 torna-se União Europeia, tendo sempre por base os princípios da Declaração de Schuman por ter sido proferida pelo Ministros dos Negócios Estrangeiros Francês, Robert Schuman, de 1950. A verdade é que este projeto europeu, além de ter os objetivos mencionados acima, tinha como principal propósito o fim de conflitos na Europa, criando laços quase inquebráveis devido a esta integração, especialmente entre a França e Alemanha.

A integração europeia vai além das fronteiras económicas, abrangendo também os valores compartilhados de democracia, Estado de Direito e Direitos Humanos, elementos fundamentais na construção de uma identidade europeia coletiva como conhecemos hoje.

A escolha da Croácia para este trabalho justifica-se a partir de um gosto especial pela história da sua região, os Balcãs, mas também devido à sua trajetória. A sua história recente, marcada pela dissolução da Jugoslávia e os conflitos que se seguiram, até à sua independência e mais tarde à sua entrada na UE, são fenómenos muito interessantes de analisar, pois são complexos e distintos do que havia até então dentro do quadro europeu.

Este estudo pretende analisar a construção do projeto europeu na Croácia desde a sua independência em 1995 e até aos momentos posteriores à sua entrada na UE. Vai ressaltar os impactos positivos e negativos da sua entrada, as dificuldades e mudanças que passou até à mesma e como este projeto impactou o país e a sua sociedade.


Contextualização Histórica da Croácia

A Croácia, como todos os países dos Balcãs, tem uma história muito complicada e diversa, uma vez que já obtiveram a sua independência plena muito tarde e estiveram subjugados a outras potências durante séculos. A Croácia no início do século XX fazia parte do Império Austro-Húngaro (já tendo estado debaixo da alçada dos Otomanos no século XIX) e, após a derrota deste na Primeira Guerra Mundial, passou a fazer parte do Reino dos Servos, Croatas e Eslovenos em 1918, que mais tarde veio a dar origem ao Reino da Jugoslávia.

A verdade é que este Reino da Jugoslávia, liderado pela Sérvia, não respeitava os princípios de autodeterminação e desde aqui havia um grande desejo dos croatas em serem independentes. Durante a Segunda Guerra Mundial e a ocupação Nazi, a Croácia tornou-se um estado fantoche, o Estado Independente da Croácia (NDH).

Contudo, no final da Segunda Guerra Mundial), a Jugoslávia foi "restituída" (1945) como uma república federal comunista, devido aos esforços do general Tito a Croácia tornou-se numa das 6 repúblicas integrantes. O general Tito implementou uma espécie de sistema de autogestão que permitiu à Croácia alguma autonomia, contudo, devido ao grande controlo e repressão do governo central, havia uma grande tensão com os movimentos nacionalistas croatas. Tais inquietações culminaram na "Primavera Croata" (1971), que consistiu num movimento com o objetivo de o país alcançar mais autonomia e do reconhecimento da identidade croata dentro da Jugoslávia (Soares, R. F. B.). A partir daqui, a Croácia começou a adotar políticas de mudanças que promoviam a cultura e língua croata, contudo, o movimento acabou por ser reprimido pelo governo central.

Já em termos económicos, a Jugoslávia, e por consequência a Croácia, como referido anteriormente, detinha um modelo comunista diferente dos demais países do bloco de leste, uma vez que dava mais liberdade às repúblicas. Durante as décadas de 1950 e 1960, a Jugoslávia experimentou um crescimento económico considerável, caracterizado por uma rápida industrialização, um aumento na produção agrícola e uma atratividade pelo investimento estrangeiro. A Croácia, sendo uma das repúblicas mais desenvolvidas, foi das que teve mais sucesso sofrendo uma rápida industrialização e aumentando o seu setor do turismo (Kukić, L.).

A partir da década de 1980, a economia jugoslava começou a enfrentar sérias dificuldades, incluindo uma crise de dívida pública e inflação crescente, que aumentou as tensões internas. Somando a isto a morte do general Tito, deixou a Jugoslávia sem um líder forte e ressurgiu ainda mais os nacionalismos e as tensões étnicas, marcando essa década por tensões internas crescentes. Já no início da década de 90 do século XX, a eleição de Franjo Tuđman como presidente da Croácia, levou a uma escalada das tensões culminando numa guerra, sendo ela da independência croata.


Guerra da independência da Croácia (1991-1995)

Na sequência do aumento das tensões étnicas na Jugoslávia e do enfraquecimento do bloco de leste devido ao colapso da URSS, a Croácia declarou a independência a 25 de junho de 1991, o que levou à intervenção do governo central jugoslavo dominado pelos sérvios. A Armada Popular Jugoslava interveio na Croácia e assim iniciou-se a guerra da independência, caracterizada por combates violentos. Esta guerra contou com a intervenção das potências ocidentais, nomeadamente da ONU, que reconheceu a independência croata. A guerra acaba no seguimento da Operação Tempestade, em agosto de 1995, na qual a Croácia conseguiu recuperar quase todos os territórios perdidos, e com a assinatura dos Acordos de Dayton.

O impacto da guerra foi multifacetado. Em primeiro lugar, o conflito resultou na consolidação da identidade nacional croata, uma vez que a luta pela independência uniu diferentes segmentos da sociedade croata em torno de um objetivo comum. Além disso, levou ao reconhecimento mundial da Croácia como Estado soberano e ao estabelecimento das fronteiras do país. A guerra também teve consequências devastadoras, incluindo a perda de vidas (cerca de 20 mil), deslocamento de populações e destruição de infraestruturas (Godić, D.).

Já no que diz respeito à economia croata, estes efeitos sentiram-se, uma vez que houve uma grande diminuição da força de trabalho e de capital humano, que condicionaram o crescimento económico e a reabilitação económica do país. Esta grande perda de produção totalizou 16% do PIB de 1995 (Zigante, V.).

Este gráfico, apresentado em Zigante, V., mostra-nos o impacto da guerra nos variados setores da Croácia, concluindo que o dano no país foi de 157%.


Reconstrução pós-independência

Esta independência croata trouxe ao país desafios significativos, uma vez que a guerra causou grandes estragos como já mencionado acima. A verdade é que logo desde o início da guerra, a Croácia começou a fazer uma transição para uma economia de mercado, contudo, devido ao esforço de guerra, essa evolução ficou um pouco atrasada. No entanto, foram aplicadas algumas reformas como a liberalização de preços e a privatização de empresas estatais. Esta privatização foi fulcral para a recuperação económica, mas sofreu muitas críticas devido à corrupção e falta de transparência.

A par destas medidas, a partir de 1993, a estabilização económica foi um ponto muito importante para o governo à data, no qual houve tentativas de equilibrar as finanças públicas e controlar a inflação através de programas de estabilização económica. No mesmo ano, com a autonomia do Banco Nacional Croata, estava-se a formar as bases para esta transição de uma economia centralizada e planificada para uma economia de mercado, no entanto, a eficácia das instituições ainda era limitada e a burocracia persistente dificultava a implementação de reformas.

A Croácia também implementou projetos para outros domínios, como é o caso do projeto UNTAES, que teve como objetivo facilitar a reintegração pacífica da Eslavónia Oriental, Baranja e Sirmium Ocidental ao controle da Croácia (ONU) ou outro projeto como o CROMAC que teve como objetivo reduzir a contaminação por minas terrestres em áreas afetadas pela guerra acelerando a recuperação económica nessas zonas.


O Processo de Integração Europeia - Primeiros passos na década de 1990

A verdade é que os primeiros passos para a construção do projeto europeu na Croácia iniciam-se na década de 90, quando a mesma se declara independente. Observamos tal fenómeno quando, a 15 de janeiro de 1992, a Comunidade Europeia reconheceu a independência da Croácia ou quando a própria Croácia começa a fazer a sua transição para uma economia de mercado (características indiscutíveis da Europa Comunitária).

No entanto, observamos que existe algum euroceticismo croata já nesta primeira fase de aproximação, muito devido ao seu líder Franjo Tuđman e ao seu partido HDZ. Esta faixa da sociedade croata, que estava no governo, criticava as comunidades europeias pela falta de apoio à Croácia no seu momento mais difícil, isto é, na sua guerra da independência contra os sérvios, e pegavam num aspeto muito relevante dada a sua história, o multiculturalismo. Tuđman acreditava que a UE não era capaz de liderar e governar sociedades com etnias e culturas diferentes e que para os croatas era impensável não terem fronteiras bem definidas com a Sérvia ou com outros países dos Balcãs (Rodríguez Lopes, H. R.).

Mesmo com esta ambiguidade existente no meio croata, o país acaba por ingressar a 6 de novembro de 1996 no Conselho da Europa. Tal entrada é um marco significativo no início da construção do projeto europeu na Croácia, uma vez que, para o país poder ingressar nesta instituição, teve de impor reformas de diversos espectros desde reformas para o melhoramento do sistema judiciário, combate à corrupção, descentralização administrativa, proteção dos Direitos Humanos, adaptação legislativa, etc. (Tratado de Adesão da Croácia). Além disso, a Croácia comprometeu-se que a sua integração europeia e a quebra do seu isolacionismo passariam pelo fim dos conflitos nos Balcãs, e, portanto, houve uma tentativa de melhoramento das relações com os países vizinhos.

Este contexto de ambiguidade começa a desaparecer após a derrota de Tuđman nas eleições em 2000, que culmina na efetiva aproximação formal da Croácia à UE por meio da assinatura do Acordo de Estabilização e Associação (AEA) celebrado em 2001. Este acordo tinha como objetivo começar a alinhar as instituições croatas aos padrões da UE (sendo eles regidos pelos critérios de Copenhaga), preparando-a para uma futura adesão. Assim, a UE impôs reformas neste acordo para a Croácia conseguir alinhar-se, sendo elas de várias naturezas, desde políticas (consolidação da democracia e do Estado de Direito, instituições democráticas robustas, separação de poderes, transparência e a responsabilidade governamental), económicas (privatizações, liberalização do mercado, promoção da concorrência) e teve em conta uma questão sensível que era a proteção dos Diretos Humanos. A UE impôs que a Croácia tivesse em conta as minorias existentes no seu território, principalmente a minoria sérvia e que fosse respeitado os Direitos Humanos. Para tal efeito, a Croácia teve de cooperar com o Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia (TPIJ), demonstrando o seu compromisso em lidar com os crimes de guerra e a justiça transnacional, o que incluiu a identificação e a extradição de suspeitos de crimes de guerra.


As negociações de adesão à UE (2005–2011)

As negociações de adesão da Croácia à UE iniciaram-se formalmente em 2005, dado que no período entre a assinatura do AEA e o início das negociações de adesão o governo de Ivica Račan (2000-2003), que substituiu Tuđman, não conseguiu gerir corretamente o processo de integração devido a falta de consenso, uma vez que o governo consistia numa coligação de 6 partidos. Este processo de integração só é conseguido ser levado para a frente, quando vem um novo governo liderado por Ivo Sanader (2003-2007), que conseguiu o status de país candidato em 2004 e iniciou as negociações em 2005 (SOŠIĆ, Mario).

Assim, a 3 de outubro de 2005, e após a Croácia ter demonstrado desempenhado suficiente no cumprimento dos Critérios de Copenhaga, as negociações iniciaram-se. O processo de negociação envolveu a abertura de 35 capítulos que abrangem diversas áreas desde Agricultura, Justiça e Assuntos Internos, Meio Ambiente, política da EU, nos quais era necessário ocorrerem mais reformas no espectro croata. A Croácia começou a abrir capítulos em 2006, com um foco inicial em áreas menos exigentes. Aqui mais uma vez a UE voltou a exigir a cooperação plena da Croácia com o TPIJ (algo que a Croácia vinha a demonstrar relutância) e o combate comprometido contra os crimes de guerra e a boa condição de vida das minorias étnicas.

Estas negociações demoradas tiveram obstáculos sendo um dos principais os conflitos fronteiriços entre a Croácia e a Eslovénia. Estes choques andavam à volta do Golfo de Piran e na definição exata da fronteira terrestre e marítima entre os dois países.

O Golfo de Piran era importante, porque determinava o acesso da Eslovénia a águas internacionais. A Eslovénia insistia em reivindicar uma parte significativa do golfo, enquanto a Croácia defendia que a divisão deveria ser feita de acordo com a linha mediana, como previsto pelo Direito Internacional. Em 2009, a disputa chegou a bloquear temporariamente o progresso da Croácia nas negociações de adesão à UE, uma vez que a Eslovénia utilizou o seu poder de veto no contexto da União Europeia para pressionar por uma resolução (SOŠIĆ, Mario).

Em 2010, ambos os países assinaram um acordo para submeter a questão à arbitragem internacional.

A somar a estes problemas com a Eslovénia, a Croácia também enfrentou bastante oposição interna de partidos que não eram a favor da adesão à UE, o que dificultou a implementação de reformas necessárias e a manutenção de um consenso político em torno do processo de integração. Além disso, os próprios membros da UE começaram a ter um certo ceticismo em relação à entrada da Croácia, não só devido às dificuldades que ocorreram nos alargamentos anteriores (2004 e 2007), mas também devido aos efeitos da Crise de 2008, afirmando que era necessário critérios ainda mais rigorosos para a entrada de novos membros (Rodríguez Lopes, H. R.). Contudo, uma das problemáticas que metia mais em causa a Croácia era a preocupação com o cumprimento dos Direitos Humanos, sendo que muitos Estados membros acreditavam que ela não conseguiria cumprir os critérios definidos.


Adesão oficial à União Europeia (2013)

Conseguidos cumprir os Critérios de Copenhaga, mesmo com diversas dificuldades, a Croácia assina o Tratado de Adesão a 30 de junho de 2011, no qual ficaram estabelecidos os termos e condições para a adesão. A ratificação do tratado exigiu a aprovação por referendo nacional, realizado a 22 de janeiro de 2012, no qual ganhou a adesão à UE de 66%, resultado este que reflete um forte desejo da população croata de se integrar na Europa e de beneficiar das oportunidades económicas e políticas que a adesão à União Europeia poderia proporcionar. Por fim, a Croácia torna-se membro oficial da UE a 1 de julho de 2013.


O Impacto da Adesão à União Europeia

Sem dúvida que um dos maiores impactos que a adesão à UE trouxe à Croácia, tendo em conta também as reformas que teve de tomar para a mesma se concretizar, foi a consolidação dos Direitos Humanos e do Estado de Direito. A partir da sua entrada, a Croácia começou a integrar as instituições da União Europeia, como o Parlamento Europeu (que nas últimas eleições elegeu 12 deputados), o Conselho da União Europeia, que governou entre janeiro e junho de 2020 (Site União Europeia) , a Comissão Europeia e o Conselho Europeu.

Somando a esta participação nas instituições europeias, a Croácia desempenha um papel fundamental no domínio da política externa da UE e da segurança da mesma, devido à sua localização geográfica e às suas relações com os países dos Balcãs. O país tem sido importante para a estabilização de tensões na região e promoção da cooperação regional, ajudando a moldar uma perspetiva europeia mais forte com vista ao alargamento da UE para a área (Featherstone, K., Economides, S., & Monastiriotis, V.). Além disso, a Croácia participa ativamente na Política Comum de Segurança e Defesa (PCSD) da UE, através de missões internacionais de manutenção da paz e segurança, na África e no Mediterrâneo, além de apoiar ações contra o tráfico humano e o terrorismo.

Já olhando para um prisma económico dos impactos da adesão croata à UE, são observados de forma bastante positiva. Aquando da adesão, a Croácia passou a integrar um dos maiores blocos comerciais do mundo, beneficiando da livre circulação de bens, serviços, capitais e pessoas, trazendo crescimento económico, mais exportações, investimento direto estrangeiro, etc., que são fatores que contribuem muito para o dinamismo económico. Estes benefícios mencionados são comprovados por estatísticas, por exemplo, segundo o Eurostat, as taxas de crescimento do PIB per capita croata antes da adesão, entre 2010-2012, eram negativas, em cerca de -2,2%. Já depois da mesma, observa-se taxas de crescimento positivas entre 2013 e 2015, registou-se taxas de 1,6%, e daí até 2019, taxas de crescimentos anuais a rondar os 2,8% (valores que depois da pandemia de COVID-19 diminuíram, não só na Croácia, como em todo o mundo).

Esta subida do crescimento económico croata deve-se muito em parte ao mercado comum da UE que permite um grande dinamismo económico e uma grande abertura de todas as economias participantes. Esta abertura da Croácia e do seu envolvimento no mercado comum é logo visível após a sua entrada através do aumento das suas importações e exportações com os membros da União Europeia e com os restantes países do mundo. A importação da Croácia dos países membros da UE em 2010 era de 58,6% e já as suas exportações eram de 59,6%. Quando observamos estes fenómenos para os restantes países do mundo, as importações eram de 41,4% e as exportações de 40,4%. Ora já em 2015, 2 anos após a sua adesão, observamos então a integração económica da Croácia no perímetro do mercado comum, uma vez que as suas importações entre os membros da UE foram de 76,6% e apenas 23,4% com os países não membros, e as suas exportações de 64,2% e de 35,8%, respetivamente (Eurostat).

A Croácia também beneficiou de contribuições da UE, isto é, Fundos Estruturais e de Coesão, sendo que entre 2013 e 2020, a Croácia recebeu cerca de 11 mil milhões de euros que tiveram como consequência a modernização do país, reduzindo as disparidades regionais e promovendo ainda mais a integração económica na UE. Estes fundos foram utilizados em infraestruturas de transporte, implementação de energias renováveis e sustentabilidade ambiental, desenvolvimento regional, particularmente em zonas rurais e menos desenvolvidas e o fortalecimento do mercado de trabalho e formação profissional (Relatório Comissão Europeia, 2021).

Além disso, a Croácia também beneficiou da Política Agrícola Comum (PAC), que gerou um desenvolvimento tanto económico como tecnológico no setor agrícola, e também tornou-se um país mais atrativo ao Investimento Direto Estrangeiro. Observa-se um crescente de IDE em setores específicos, como é o caso do setor do turismo, tecnologia, manufatura e imobiliário, por parte de empresas alemãs, italianas e austríacas. Um dos setores que mais se desenvolveu e trouxe rendimento ao país foi o do turismo. A Croácia já era um destino turístico popular, mas enfrentava limitações no acesso ao mercado europeu devido às restrições alfandegárias e de mobilidade. Contudo, devido à adesão ao turismo, tornou-se um dos setores cruciais para o PIB, sendo que, por exemplo, em 2013, representava 16,5% e, em 2019, 19,35%.

No entanto, mesmo havendo todos estes benefícios económicos, a Croácia, após a adesão à UE, continua com problemas neste domínio. Um dos maiores problemas é sem dúvida as disparidades regionais, uma vez que estes fundos europeus apenas são aplicados nas áreas mais desenvolvidas, deixando as outras regiões para trás tanto em termos económicos como tecnológicos. Além disso, as áreas com maiores dificuldades são as que foram mais devastadas pela guerra da década de 90, nas quais ainda se sente muito o impacto da mesma. Outro problema bastante presente na Croácia é a emigração, especialmente de mão de obra jovem qualificada, que emigra para outros países membros em busca melhores condições de vida e de salários mais competitivos (Featherstone, K., Economides, S., & Monastiriotis, V.).

Segundo Dados do Escritório de Estatísticas da Croácia (DZS) entre 2013 e 2023, impressionantes 389.197 pessoas deixaram a Croácia. O país tem vindo a perder muitos habitantes. Em 2011, a Croácia tinha 4,3 milhões de habitantes, atualmente, possui cerca de 3,8 milhões e estima-se que, em 2050, a população seja de 3,4 milhões, número que tem tendência para diminuir (ONU).

Socioculturalmente, esta adesão da Croácia à UE trouxe sem dúvida diversas melhorias ao bem-estar da população croata, devido à melhoria da economia, ao acesso à educação, ao bem-estar efetivo das populações, a famosa frase "viver e não apenas sobreviver", que na minha opinião era o que acontecia no país. Contudo, associado a esta adesão vem as dúvidas acerca da mesma, o chamado euroceticismo e o debate entre a identidade nacional versus identidade europeia. Se é verdade que esta adesão trouxe à Croácia um sentimento de liberdade do domínio jugoslavo não é menos verdade que esta aceitação das condições da UE, como a cooperação com o Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia (TPI) e a aceitação e reconciliação de minorias e dos países vizinhos dos Balcãs, foi vista como uma limitação da soberania nacional, gerando um sentimento de euroceticismo entre a população.

No entanto, com provas dadas dos benefícios da adesão e devido à forma como os governos croatas conseguiram transparecer para a população que esta adesão era uma forma de transpor a Croácia para um lugar mais seguro e importante no contexto internacional, este fenómeno conseguiu de alguma forma ser atenuado, contudo, continua a ser uma temática amplamente discutida no país. Não é de estranhar que haja este medo de perder a soberania, uma vez que é tão recente e foi tão sofrida, contudo, a Croácia tem usado esta adesão para se colocar como uma potência importante no contexto dos Balcãs, através de fórmulas pacíficas e reconciliadoras.

Desafios e Perspetivas Futuras

A Croácia como elemento mais jovem da UE ainda tem alguns desafios para conseguir estar mais próximos dos restantes membros. Um desses desafios sem dúvida que é a corrupção e a burocracia no país. Segundo uma pesquisa de (Rodríguez Lopes, H. R.), a confiança pública no sistema judicial é bastante baixa, com apenas 25% dos cidadãos a considerar a independência do sistema judiciário como "muito boa" ou "razoavelmente boa". A somar a isto, existe também então um excesso de burocracias que limita a eficiência das instituições publicas e a eficácia das políticas públicas, resultando em dificuldades na programação e implementação dos Fundos Estruturais e de Investimento da UE.

Além disso, é necessário ter em conta que o país é muito dependente do setor do turismo, e é necessário avaliar outros setores para fornecer crescimento económico e para que o mesmo seja sustentável, uma vez que o setor do turismo é muito associado a fatores externos como crises económicas ou como o caso recente da pandemia de COVID-19.

Analisando as perspetivas futuras da Croácia no contexto da UE, sem dúvida que o país pode e tem vindo a desempenhar um papel crucial no alargamento da UE aos Balcãs. O alargamento da UE para esta região é visto como uma oportunidade para promover a estabilidade e a segurança, além de fomentar o desenvolvimento económico destes países. A Croácia pode atuar como um modelo para os países vizinhos, demonstrando os benefícios da adesão à UE, e na atenuação das tensões inerentes a esses países.

Outra perspetiva futura será analisar os impactos da adoção do euro na Croácia que ocorreu a 1 em janeiro de 2023. A entrada no Mecanismo Europeu de Taxas de Câmbio (ERM II) em julho de 2020 foi um passo significativo nesse processo, servindo como uma fase de adaptação para a transição monetária. Numa análise breve, os benefícios incluem maior estabilidade financeira, atração de investimentos estrangeiros e facilitação do comércio, além de um maior desenvolvimento turístico, uma vez que a Croácia é um dos destinos preferidos da população dos países que utilizam o euro. Já nas desvantagens, é necessário analisar o impacto sobre a inflação e os custos de transição (MUJAČEVIĆ, Elvis; MARTIĆ, Zrinka).


Conclusão

A trajetória da Croácia rumo à União Europeia reflete um percurso singular de reconstrução nacional, integração política e adaptação económica. Desde a independência em 1995, o país enfrentou desafios monumentais, desde a superação das marcas da guerra até a necessidade de alinhar as suas estruturas políticas, económicas e sociais aos rigorosos critérios europeus. A adesão oficial em 2013 representou não apenas um marco histórico, mas também um compromisso com os valores compartilhados de democracia, Estado de Direito e respeito pelos Direitos Humanos.

A minha análise é que a integração trouxe impactos significativos, especialmente no fortalecimento institucional, no crescimento económico e na modernização de infraestruturas, impulsionados pelos fundos estruturais e pela livre circulação dentro do bloco. Por outro lado, persistem desafios como disparidades regionais, emigração de jovens qualificados e a excessiva dependência do turismo. O euroceticismo, ainda presente em parte da população, destaca as tensões entre identidade nacional e soberania europeia, questões que permanecem relevantes no debate público.

O futuro da Croácia na União Europeia dependerá de sua capacidade de superar problemas internos, como corrupção e burocracia, e diversificar sua base económica para alcançar um crescimento sustentável. No entanto, a posição geopolítica estratégica do país e seu papel na estabilização dos Balcãs oferecem perspetivas promissoras. A Croácia, como membro mais jovem do bloco, pode consolidar-se como um modelo de integração bem-sucedida e como um catalisador para o alargamento da UE na região.

Em suma, a experiência croata com o projeto europeu demonstra como a união de esforços internos e externos pode reconfigurar positivamente um país, ainda que este processo exija um equilíbrio contínuo entre adaptações internas e compromissos multilaterais.


Referências Bibliográficas

Soares, R. F. B. (2021). Nacionalismo e as guerras de independência da Croácia e da Bósnia. Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Escola de Direito e Relações Internacionais.

Zigante, V. (2007). An economic evaluation of the Croatian transition policy mix (Bachelor's thesis). Department of Economics.

Kukic, L. (2020). Origins of regional divergence: Economic growth in socialist Yugoslavia. Economic History Review, 73(4), 1097–1127

https://peacekeeping.un.org/en/mission/past/untaes.htm - ONU

Godić, D. (2019). Domovinski rat u hrvatskim znanstvenim časopisima. Hrvatski institut za povijest

Rodríguez Lopes, H. R. (2022). The accession of Croatia to the European Union: Can a success Balkan case be exported to its neighborhood (Dissertação de Mestrado). Universidade Beira Interior, Programa de Relações Internacionais.

Pedido de adesão da Croácia ao Conselho da Europa https://assembly.coe.int/nw/xml/XRef/X2H-Xref-ViewHTML.asp?FileID=7468&lang=EN

Featherstone, K., Economides, S., & Monastiriotis, V. (Eds.). Integrating the Western Balkans into the EU: Overcoming mutual misperception. In New perspectives on South-East Europe. London School of Economics and Political Science, UK.

https://ec.europa.eu/eurostat/databrowser/view/ext_lt_intratrd__custom_14655469/default/table?lang=en&page=time:2010

SOŠIĆ, Mario.(2008).Croatian Strategy of EU Integration 2000-2007- A Comparative Study. Regional Centre of the Institute for Social Sciences Ivo Pilar in Pula, Croatia

MUJAČEVIĆ, Elvis; MARTIĆ, Zrinka. Uvođenje eura 2023. godine i mogući utjecaji na turizam u Republici Hrvatskoj / Introduction of the Euro in 2023 and Possible Effects on Tourism in the Republic of Croatia.



[Este ensaio é uma adaptação de um trabalho para a Unidade Curricular de Integração Europeia: Teorias e Instituições] 

Núcleo de Estudos Europeus da Universidade de Lisboa
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