A Sétima Arte no Panorama Nacional
Domingo à tarde, o mundo desacelera e parece pausar antes do recomeço inevitável da semana. Para muitos, surge um ritual que já se tornou uma tradição: uma sessão de cinema que transporta para outros mundos. O simples ato de escolher um filme, consoante o estado de espírito ou a curiosidade do momento, continua a ser uma das características mais enriquecedoras que a cultura pode proporcionar.
Um exemplo marcante é A Metamorfose dos Pássaros de Catarina Vasconcelos, que convida o espectador a mergulhar numa experiência sensorial e emocional única. Filmes como este relembram-nos o poder que a sétima arte possui de nos comover através de imagens, palavras e música.
As crenças populares dizem "diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és". Sinceramente, o que mais se adequa seria: "diz-me os teus gostos cinematográficos e dir-te-ei quem és."
O cinema é uma das artes mais emblemáticas da era contemporânea. Mas, infelizmente, enfrenta um desafio crescente: a sua essência parece diluir-se num contexto comercial. A indústria tem-se transformado numa competição incessante de lucros e reconhecimento. Pondo de parte, muitas vezes, o facto do cinema, na sua origem, ser sobretudo uma forma de expressão. Talvez se deva à negligência ao qual o mesmo é sobreposto.
Em Portugal, o cinema assume contornos banais, quando poderia ser um instrumento poderoso de expressão nacional. Acolheu almas viajantes e poderosas dentro do nosso país, no entanto, não possui o respetivo valor. Realizadores como Manoel de Oliveira brilham no panorama internacional, mas novos cineastas ainda lutam para conquistar um lugar de destaque no próprio país. É desolador constatar que o cinema nacional ainda enfrenta sérias dificuldades. Diretores internacionalmente aclamados, como João Gonzalez - vencedor do prémio de Cannes Leitz Cine Discovery Prize for Short Film, pela curta-metragem Ice Merchants —, entre janeiro e maio de 2025, os filmes portugueses ou de co-produção nacional representaram apenas 0,8% das receitas de bilheteira, de acordo com o Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA). Enquanto companhias internacionais arrecadam milhões, filmes locais mal alcançam salas de exibição suficientes para serem notados.
Portugal é um país de enorme riqueza cultural, mas os portugueses tendem a negligenciar este aspeto, ainda que exista um senso de comunidade possibilitado pelo cinema, como demonstra a tradição natalícia de ver o Sozinho em Casa na SIC após a meia-noite.
Por que será que, Portugal, com tanto talento e riqueza cultural, ainda subestima as suas próprias criações? O que podemos fazer para mudar essa dinâmica? A resposta reside na falta de valorização e de investimento financeiro. O caminho para um cinema nacional mais reconhecido exige diversas iniciativas, desde o aumento de incentivos à produção, até à promoção de filmes nacionais em salas de exibição ou escolas.
Talvez devêssemos abandonar o estigma de que o cinema é apenas uma distração ou passatempo, e na verdade um símbolo do nosso país. É um espelho da história. É a sociedade em desenvolvimento, é a visão dos nossos avós sobre um país em mudança, as lembranças dos nossos pais e os sonhos das novas gerações. São ambições, memórias, lágrimas, gargalhadas e muito mais. O cinema, enquanto arte, conta histórias e preserva memórias coletivas.
Mais do que uma arte, o cinema molda mentes e semeia novas, é uma ponte entre indivíduos e culturas. Reflete o que fomos, o que somos, e o que poderemos vir a ser. Valorizar o cinema português é em última instância valorizar a nossa identidade coletiva.
Se não cuidarmos do que nos representa, como poderemos esperar que as futuras gerações sintam a mesma paixão e visão criativa?
Beatriz Silva

