Dia do Estudante

24-03-2023

Hoje é dia 24 de março.

Estamos, porém, em 2023.

Podemos sair à rua para reclamar os nossos direitos, envergando as nossas capas negras, símbolo também de revolução e irreverência estudantil.

Caso recuássemos algumas décadas, até ao ano de 1962, na Academia de Lisboa, deparar-nos-íamos com uma situação muito diferente: um país silencioso e uma Academia imóvel, graças às amarras da ditadura.

Imóvel, mas nunca morta.

Nós nunca morremos.

Imóvel, mas nunca calada.

Em resposta à proibição de celebrações em 1962, por parte da ditadura, os nossos colegas ocuparam a Cantina Velha, tendo até sido apoiados pelos colegas de Coimbra, que se mostraram solidários para com a luta.

Foram violentamente reprimidos pela polícia e declararam, em tom de resposta, Luto Académico, já que o "governo" se mostrava intransigente quanto às celebrações do Dia do Estudante como um todo.

Alguns deles foram presos por continuarem a resistir.

Mas nunca se deixaram ser silenciados e a luta continuou.

A Luta Académica continua sempre.

Quem prende estudantes por lutarem por aquilo que lhes é devido não é mais que um verme.

De 1962, avançamos mais alguns anos na luta das capas negras, até 1969, desta vez em terras Coimbrãs. É numa visita de Américo Thomaz à Universidade de Coimbra que os nossos colegas mais a Norte pretendem ser ouvidos pelo "governo".

Neste dia, o colega Alberto Martins, de capa negra aos ombros, em cima de uma cadeira, profere a imortal frase "Em nome dos Estudantes de Coimbra, peço a palavra."

Claro que não lhe deram a palavra.

Claro que não nos dão a palavra hoje.

Quando o "governo" ignora os estudantes e apenas classifica a luta como uma "onda de anarquia", o ambiente torna-se mais pesado em Coimbra.

A Associação Académica de Coimbra reage: publica a Carta à Nação onde pede uma reestruturação social e um novo Portugal e equaciona a possibilidade da greve aos exames. Mesmo a mobilização para Guerra Colonial sendo uma possibilidade, avançaram.

Nunca os conseguiram calar.

Quem foi obrigado a trocar a capa e batina por uma farda e pela consciência de que, talvez, não voltasse dos horrores da guerra, nunca perdeu o brilho nos olhos e a força de lutar.

E foi em homenagem a todos estes colegas, que se sacrificaram por nós e lutaram contra as amarras da ditadura que, em 1987, a Assembleia da República Portuguesa votou que 24 de março seria o Dia Nacional do Estudante.

Estamos em 2023.

É dia 24 de março.

Nenhum de nós, por lei, poderá ser preso por se expressar e as capas negras não são vistas com mau ar por parte da Polícia e do Governo.

Hoje, o que é que nos impede?

Quem nos impede de ir para a rua gritar?

Felizmente, já não há Guerra Colonial; as nossas guerras, hoje, são outras: lutamos por ter onde viver, ter onde comer, ter como estudar.

Lutamos contra instituições que não nos veem como humanos e dignos, lutamos contra o Negócio do Ensino Superior.

Lutamos contra propinas que afastam os nossos colegas, lutamos por ter onde cair mortos.

Fundação a fundação, vamos matando a Academia aos poucos, como se de facadas se tratassem.

Em Letras, lutamos por sítios onde comer, quiçá horário para almoçar - até presidiários têm horários mais equilibrados do que os nossos.

Em Letras, lutamos por infraestruturas para estudar.

Em Letras, lutamos por justiça. Justiça interna. Contra quem, no nosso espaço, não quer o nosso bem. Contra quem humilha os nossos colegas vítimas de violência e ainda se ri na nossa cara.

O silêncio não é uma opção. Deixar calar a memória dos colegas que viveram as Crises Académicas de 1962 e 1969 não é uma opção.

Não podemos deixar que tal aconteça.

Não podemos deixar que nos vendam,

Que nos calem,

Que nos queiram cegos, surdos e mudos.

Em nome dos Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, peço a palavra:

A Academia de Letras de Lisboa é dos seus Estudantes. Foi, é, e continuará a ser.

Saudações Académicas,

NESTEU – Núcleo de Estudantes de Estudos Europeus da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa


Beatriz Mestre, Estudos Europeus, FLUL

Núcleo de Estudos Europeus da Universidade de Lisboa
Desenvolvido por Webnode Cookies
Crie o seu site grátis! Este site foi criado com a Webnode. Crie o seu gratuitamente agora! Comece agora