Entre a poesia e a vida: Reflexão sobre Dead Poets Society (1989)
Já se passaram décadas desde que Dead Poets Society estreou, e ainda assim o filme permanece um ícone. O seu legado continua vivo, especialmente entre estudantes de Letras, que quase inevitavelmente já ouviram falar desta obra. Mas o que torna este filme tão intemporal? Será o impulso libertador de subir às mesas da sala de aula, gesto que, no fundo, muitos de nós já tivemos vontade de imitar? Ou será porque, mesmo sem se propor a responder diretamente a grandes questões, acaba por tocar em temas profundamente relevantes para quem hoje enfrenta a vida académica?
Dead Poets Society (1989), realizado por Peter Weir, conta com a participação memorável de Robin Williams, Ethan Hawke e Robert Sean Leonard. O filme acompanha a chegada do professor John Keating a uma escola preparatória conservadora nos Estados Unidos dos anos 50. Através de métodos pedagógicos pouco convencionais, Keating transforma o ambiente rígido e tradicional da instituição. Ao invés de impor a poesia, ele procura que os próprios alunos a vivam, sintam e descubram por eles próprios. Assim, inspira-os a pensar de forma crítica, a valorizar a criatividade e até a recuperar o antigo clube literário "Dead Poets Society". Este despertar intelectual e emocional leva-os não só a confrontar as normas impostas pela escola e as expectativas familiares, mas também a enfrentar os seus próprios medos e a encontrar a sua própria voz.
Desde a estreia, o filme foi um enorme sucesso. Recebeu o Óscar de Melhor Roteiro Original (1990) e foi nomeado para Melhor Filme, Melhor Realizador (Peter Weir) e Melhor Ator (Robin Williams). Conquistou também prémios internacionais como o BAFTA de Melhor Filme e Melhor Banda Sonora, além de distinções de Melhor Filme Estrangeiro nos prestigiados prémios César (França) e David di Donatello (Itália).
Curiosamente, apesar de hoje ser visto como um marco cultural, o projeto começou de forma mais modesta: inicialmente pensava-se num filme independente e de baixo orçamento. Só mais tarde os estúdios reconheceram o potencial dramático e humanista do guião, permitindo um elenco mais forte e uma produção mais cuidada. Até mesmo a célebre cena final — a recitação de "Oh Captain! My Captain!" — não estava prevista para se tornar tão emblemática. Foi durante as filmagens que a equipa percebeu a sua carga emocional, levando mesmo vários membros a emocionaram-se profundamente durante as primeiras filmagens.
Este filme é poderoso e único, muito graças à presença de Robin Williams, que encarna John Keating com uma sensibilidade inesquecível. Através da sua interpretação, sentimos verdadeiramente o amor pelas letras — um amor que continua a ecoar hoje. E ao qual deveria ser dado mais destaque. Conta, ainda, com a performance de Robert Sean Leonard, que interpreta Neil Perry, um jovem ambicioso, carismático e sonhador, capaz de inspirar qualquer audiência. Neil absorve profundamente a mensagem do professor Keating e enfrenta o pai que não o permitia seguir os seus verdadeiros desejos, mesmo que isso lhe custe a própria vida. O sacrifício de Neil torna-se intrínseco ao grupo de jovens, e, embora a instituição tente culpabilizar o professor, o seu legado permanece vivo em cada um deles.
Dead Poets Society é como um abraço apertado de alguém especial que não vemos há muito tempo. É intemporal porque transmite, com sinceridade, a força das humanidades e lembra-nos por que razão a arte, a literatura, e a poesia continuam a ser essenciais à nossa existência.
São
estas coisas que nos movem e que dão sentido à vida. Como diz o professor
Keating: carpe diem. Aproveita o dia. Aproveita o que vem e o que
vai. E, acima de tudo, não deixes nunca de ser tu próprio.
Num mundo cada vez mais dominado pela ciência, pela exatidão dos resultados das
nossas ações e pelo foco incessante na produção em massas, o filme recorda-nos a fruição das palavras e a simplicidade
que as mesmas transmitem e ocupam no nosso quotidiano. Como defende Keating: "a
beleza, a arte e a poesia são as coisas pelas quais vale a pena viver". Será
verdade? Difícil confirmar, mas já é um começo termos a liberdade necessária
para refletir sobre este princípio.
Beatriz Silva

