Guerra e Propaganda

Durante os anos das grandes guerras mundiais, cativantes cartazes com representações de símbolos nacionais como Uncle Sam ou Herbert Kitchener eram disseminados pelos países Aliados. Isto com o objetivo de incutir às suas populações a importância da sua participação no conflito bélico, pela pátria! Em anos mais recentes, a guerra da propaganda usufrui de novas e elusivas armas. Em relação a um dos conflitos mais mediáticos no momento de redação do presente artigo, vemos utilizadores em redes sociais a disseminar imagens falsas de manifestações pró-Israel de massa, produzidas com recurso a softwares de inteligência artificial. Apesar dos instrumentos de propaganda terem evoluído drasticamente, o discurso, as mitologias, os argumentos de que os Estados se servem para justificar as suas guerras e que caracterizam a sua propaganda são ainda sussurros do passado, ou melhor, gritos.
A propaganda, muito simplificadamente, pode ser entendida como a disseminação de factos ou ideias concebidas intencionalmente para difundir uma doutrina ou causa, assim como contestar uma outra oposta. A propaganda não compreende assim uma índole necessariamente negativa, ou uma qualidade inerentemente enganosa. A caracterização da propaganda como boa ou má, ou como propaganda sequer, depende principalmente das ideologias prevalecentes no contexto político, cultural e mediático em que se insere. Daí a sistemática dificuldade, no seu reconhecimento imediato. A propaganda alimenta a guerra, é o meio essencial pelo qual os Estados tentam captar o apoio geral do público, comprovar a perversidade do inimigo, legitimar a sua luta e reivindicar a guerra justa. A propaganda procura acima de tudo apelar à emotividade da população, não ao seu intelecto. O objetivo da propaganda não é facilitar a compreensão de conflitos complexos, mas limitar o conhecimento sobre os mesmos, de modo a mais facilmente manipular a opinião pública. A ideia de responsabilidade é essencial para mobilizar o público, no desabrochar do conflito, os beligerantes procuram prontamente responder à questão, como é que começou? De quem é a culpa?
Há séculos que a "gestão da opinião" está no topo da lista de preocupações dos Estados. No entanto, a propaganda ganha a sua desmesurada força no século XX, com o desenvolvimento da multiplicidade dos media e dos meios de comunicação de massa, uma conjuntura que cultiva a guerra total e a propaganda que a acompanha. A Primeira Guerra Mundial revela indubitavelmente a propaganda como uma ferramenta indispensável do Estado, especialmente do Estado beligerante. A Primeira Guerra não poderia apenas ser apresentada como uma luta de nacionalismos, era necessária a criação de uma mística, de uma causa, na sua essência abstrata, mas que mobilizasse as massas, em nome do futuro da civilização europeia! A propaganda manifestava uma simples dicotomia, o "bem" contra o "mal", da "civilização" contra a "barbárie". Na Grã-Bretanha, a guerra era simplificada através, por exemplo, de alusões à Antiguidade Clássica, um tópico prevalente na propaganda. O Império Britânico representava a democracia ateniense, enquanto os Impérios Centrais espelhavam a selvajaria espartana, identicamente do outro lado da guerra, comparações da mesma natureza prevaleciam. Como tal, a Alemanha preocupou-se com a justificação das suas invasões através do típico argumento da defesa pessoal, a invocação da guerra defensiva vai ser usada e abusada no futuro. A ideia propagandística de uma Alemanha rodeada por inimigos e em perigo iminente foi triunfante em unir as classes alemãs. A Grande Guerra demonstrou igualmente a cumplicidade dos intelectuais na produção de imagens e textos propagandísticos. Pois, não são só os media que difundem propaganda, a mesma está bem presente na academia. Os historiadores, os poetas, os cientistas, não desfrutam de uma objetividade superior inerente, são tão capazes de entrelaçar ideologia no seu trabalho quanto o próximo. Propaganda, quando apoiada pelos mais eruditos, tem um efeito avassalador. Ademais, Deus, para variar, foi uma invocação comum, uma linguagem intimamente religiosa é transversal à propaganda dos beligerantes.
A Segunda Guerra Mundial revelou claramente os efeitos de uma campanha propagandística centrada na desumanização do inimigo. A propaganda nazi exprime diretamente as ideias fundamentais do nacional-socialismo, a superioridade racial dos "arianos" e a sua missão de defesa da Europa contra os invasores "impuros". Para justificar a guerra é crucial a definição do inimigo, aqui, o judeu. Pósteres nazi exibem representações antissemitas do judeu que difundem a ideia de inferioridade racial e, contraditoriamente, um indivíduo todo-poderoso que conspira contra o povo alemão. O antissemitismo não é uma novidade na Europa, aliás, não é descabido argumentar que o genocídio do povo judeu foi tão bem-sucedido precisamente devido a este preconceito já normalizado na sociedade europeia, que resultou numa inação face aos primeiros sinais do discurso racista alemão. O que aponta para paralelismos assustadores com acontecimentos mais recentes, mas em relação a um povo diferente. A desumanização do inimigo é importante para eliminar qualquer inibição que o ser humano possa ter, em relação ao homicídio em massa. Isto é alcançado, por exemplo, ao criar imagens animalescas do inimigo, que apagam a sua humanidade. Tal foi decisivo no lançamento das duas bombas nucleares sobre o povo japonês. O bombardeamento de Hiroshima e Nagasaki foi menos penoso sobre a consciência ocidental pois, devido à disseminação de propaganda racista, o "extermínio" de "vermes" não suscita grande remorso. A generalização do inimigo facilita a utilização de armas de longa distância, se o inimigo é todo igual, então o inimigo está em todo o lado, e todas as vítimas que resultam do uso de tecnologia que mata indiscriminadamente são assim justificáveis.
Esta mesma ideia é intrínseca a uma guerra mais recente, que se apoia profundamente na propaganda. A denominada "War on Terror" depende de uma conceção profundamente orientalista do inimigo, aqui, o muçulmano. Para além disso, para se consagrar a invasão do Iraque, os EUA apostaram num discurso que remete à Segunda Guerra. Para que o povo americano ultrapassasse os seus interesses individuais e apoiasse a sua participação na guerra contra os nazis, foi necessária a criação de uma missão que atualmente permanece estreitamente ligada à identidade nacional dos norte-americanos. A preponderância mundial americana assenta bastante na posição dos EUA como os "lutadores pela liberdade" que lhes conferiu carta branca para prosseguir com sistemáticos conflitos violentos, pela "democracia"! O mesmo discurso foi utilizado relativamente à Guerra do Vietname. Tal como aconteceu com o vietnamita e o soviético, o "árabe" na comunicação e televisão ocidental é apresentado repetidamente como um fanático, perverso e violento. A construção do inimigo muçulmano garantiu o apoio generalizado às intervenções ocidentais no Médio Oriente e uma representação positiva das mesmas nos telejornais, nos filmes. Estes estereótipos e esta forma de propaganda está de tal forma entrelaçada nos conteúdos consumidos, que o seu reconhecimento se torna difícil. É compreensível que o indivíduo comum, ao assistir os épicos filmes de guerra que dominaram os anos 80, não tenha em mente uma análise crítica da propaganda pró-guerra norte-americana, mas tal pode ser mais importante e menos trivial do que parece.
Atualmente, a era digital tem aparentemente revolucionado a guerra de propaganda. As tecnologias digitais têm descentralizado e democratizado o acesso à informação. Por um lado, a era digital tem possibilitado a divulgação de movimentos sociais pacifistas e de interesses civis contrários às agendas dos Estados, algo que historicamente não era possível. Mas isto pode não significar uma verdadeira pluralidade, pois, numa sociedade capitalista, uma elite ainda domina as tecnologias digitais e apenas uma minoria tem clara visibilidade online. Por sua vez, também se generalizou o consumismo frenético e a ânsia por informação altamente simplificada e sobretudo rápida, em vez de correta. Os Estados apostam cada vez mais na distração do que na manipulação. Há guerras que merecem atenção mediática e guerras que são conscientemente ignoradas, ou enterradas. Apesar das entidades de comunicação de agora serem independentes, ainda são motivadas pelo lucro, como tal, repetidamente sucumbem aos interesses do Estado e das grandes corporações. A guerra para o público contemporâneo é excessivamente normalizada, a guerra perde o seu caráter real e violento e ganha as características das de um filme de super-heróis. O público sofre da doença que é o esquecimento. Pois, se a memória e o reconhecimento destas estratégias de propaganda fosse generalizado, talvez a manipulação da opinião e a justificação da guerra seria mais difícil. Pois estas justificações não são novidade, há toda uma experiência anterior que exemplifica as consequências devastadoras de certos discursos, infelizmente o contemporâneo não parece aprender com a história. Não há como prever o que as novas tecnologias como a inteligência artificial vão oferecer à guerra da propaganda, mas a violência parece continuar a ser facilmente justificável com os mesmos mitos do passado.
Mariana Santos
