
As Mulheres de Abril
A ditadura do Estado Novo teve grandes impactos na vida de todos aqueles que a viveram e lutaram contra. No entanto, não foi só de homens que se fez a revolução. Há que ter em conta que todas as minorias, particularmente as mulheres, devem ter uma menção especial. Devemos muito a estas pessoas devido à sua grande resistência e grande luta por um Portugal melhor, um Portugal mais livre.
Foram muitas as mulheres que lutaram para que todos os direitos que usufruímos nos dias de hoje fossem conquistados. Importa pensar que, numa sociedade ainda desigual e discriminatória, estas não deixaram de participar. Há, nesse sentido, um processo de construção e de afirmação da sua presença nas dinâmicas sociais e políticas. Houve luta na clandestinidade, nas prisões, em fábricas, nas universidades, nos movimentos sociais, nas cooperativas. Estas mulheres, muitas delas com os filhos às costas, fizeram-no enquanto travavam a batalha contra o que a sociedade lhes tentava impor, contra um papel de género anteriormente definido, extremamente limitador e desrespeitador para com as capacidades de cada uma. As mulheres não são apenas "fadas do lar", não servem apenas para serem esposas e donas de casa, apesar de ser este o ideário do sexo feminino durante o Estado Novo. São seres humanos capazes, com o direito aos mesmos benefícios que os homens sempre tiveram. Presente esta injustiça, as Mulheres de Abril foram cruciais no desenvolvimento destes direitos e na conquista da igualdade de género.
Vinte e cinco de abril de 1974. O fim de uma era. O início de um tempo novo. As mulheres, na sua pluralidade e heterogeneidade, tiveram um papel na oposição e na resistência contra a ditadura. Talvez muito do que poderia ser uma agenda feminista ficasse subsumido a um imperativo maior, o do derrube do regime. Nos 49 de democracia pós-revolução dos cravos, são também muitas as mulheres que tudo fazem para mudar as condições de vida das crianças, mulheres e homens deste país. É certo que, a partir desse dia, as mulheres que já tinham arregaçado as mangas continuaram a ter uma participação política e cívica, lançando-se num período de dinâmica revolucionária. Talvez, desta feita, com alegria. As Novas Cartas Portuguesas, escrito pelas "três Marias" trouxe uma realidade que não era vista por muitos, o que ajudou muito na defesa dos direitos. Muitas outras faziam a sua transformação em sujeitos políticos de corpo inteiro. Às lembranças de algumas, que viveram de perto ou à distância a revolução, que mudaram de país e se mudaram a si por causa dela, soma-se o legado de conquista de direitos reconhecidos por todas, incluindo pelas das gerações que já nasceram ou cresceram em liberdade.
E se esse dia de abril foi um dia único, há uma continuidade na forma como as mulheres colaboraram na luta e combateram, com pluralidade de visões, pelo que achavam justo. Cabe-nos continuar as lutas de abril porque há ainda uma grande revolução a fazer: a revolução da igualdade entre mulheres e homens. Ainda lutamos. Estamos cá. Termino com um poema de Maria Teresa Horta:
Mulheres de Abril
somos
mãos Unidas.
Certeza já acesa
em todas
nós.
Juntas formamos
fileiras
decididas.
Ninguém calará
a nossa
voz.
Mulheres de Abril
somos
mãos unidas.
na construção
operária
do país.
Nos ventres férteis
a vontade
erguida
de um Portugal
que o povo
quis.
A todas as mulheres de abril, o nosso sincero tributo.
Madalena Paulo, Estudos Europeus, FLUL
