O Futuro das Humanidades

Contando com a presença de Pilar del Río (Presidente da Fundação de José Saramago, jornalista, tradutora das obras de José Saramago para espanhol e sua companheira de vida), Pedro Mexia (poeta, crítico literário e consultor do Presidente da República para a cultura), Hermenegildo Fernandes (Professor Catedrático e Diretor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa) e José Maria Vieira Mendes (dramaturgo, membro do Coletivo do Teatro Praga e professor auxiliar na FLUL), o grupo Clepsydra organizou no dia 31 de outubro de 2025 a sua primeira mesa redonda. As questões foram desde o futuro da nossa faculdade ao papel e importância dos estudos humanísticos. De um ponto de vista mais pragmático, o Professor Hermenegildo olha para o futuro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa como um de intervenção, de interesse (tanto por parte dos alunos, como do corpo docente, e mesmo entre estes dois corpos), além de referir a importância indispensável da investigação histórica, pois só assim, conhecendo o passado, podemos olhar para o futuro com convicção. Por outro lado, Pilar foi questionada sobre o papel da literatura na sua relação com o progresso humano. Na verdade, a resposta de Pilar deixa-nos a pensar, não só no papel da literatura como base dos valores humanísticos, mas também no aspeto absolutamente essencial da humanidade em tudo com o que contactamos no dia a dia. A jornalista refere o ponto fundamental, que talvez seja preciso ser relembrado na sociedade atual: "um médico não pode ser médico sem ser humanista". O "médico", nesta frase, pode ser substituído por várias outras profissões, se não todas (na verdade, será dado um exemplo uns minutos mais tarde que substitui o "médico" por "economista", demonstrando o espectro que o humanista deve alcançar).
"Como é que uma faculdade de estudos humanísticos nos pode preparar para o mundo?"
Esta é uma questão bastante atual, quando consideramos que, tal como
foi referido nesta conversa, as faculdades (principalmente de letras)
não foram, inicialmente, desenvolvidas para serem o primeiro passo de
uma carreira. O foco não era entrar numa faculdade de estudos
humanísticos para poder fazer uma carreira que nos permitisse ter um
salário e um emprego estável, como hoje é idealizado. Era sim o
aprofundamento do conhecimento, da própria humanidade. Sendo
assim, revertendo ao objetivo inicial deste estudo, o conhecimento
social e humanístico equivale ao auto-conhecimento, estão ambos os
conceitos interligados.
No seguimento desta discussão, foi pertinentemente questionado o
impacto das políticas globais de desinvestimento na Educação na íntima
relação desta com a Humanidade, a Cultura e o pensamento crítico.
Duas problemáticas levantadas neste tema foram a falta de
investimento, mais especificamente nos estudos humanísticos, e a
privatização da educação. "Não [se deve] deixar a sanidade e a
educação para o privado". Esta frase de Pilar é de especial interesse,
pelo menos para mim, pela escolha que a jornalista fez ao utilizar a
palavra "sanidade" para descrever o que o estudo social e humanístico
nos oferece. Esta sanidade é-nos salvaguardada pelo acesso à
educação, pelo acesso à cultura e ao pensamento crítico. Ao contrário
da interpretação mais comum do conceito de sanidade (uniformização,
equilíbrio, estabilidade), penso que o devamos interpretar de forma
quase oposta nesta citação - a manutenção da sanidade na Educação
deve ser vista como pluralidade, variedade e, no fundo, progresso. Se a
Educação não seguir em direção à sanidade e, consequentemente, ao
progresso (conceito no qual não podemos desvalorizar a importância
dos ideais humanísticos) e ao investimento nesse mesmo, corremos o
risco de desincentivar o interesse no pensamento crítico, o que
culminará numa sociedade conformada.
E qual a relevância dos estudos humanísticos no progresso científico,
tecnológico e outros? Como referi anteriormente, a caracterização de um bom economista foi feita através da definição de "economista
humanista". Para dar apenas um exemplo, descreveu-se um bom
economista como um que não apenas diz quanto custa o pão, mas
consegue ainda explicar o porquê de todas as pessoas merecerem o
pão. A Educação humanista garante-nos ainda o privilégio da ação,
ideia que se encontra no pensamento de não ser "nem otimista, nem
pessimista", mas sim ativista. Temos, assegurada pelo conhecimento
humanístico, a capacidade de agir em prol de um bem maior.
Tendo a discórdia um papel essencial no progresso, Pedro Mexia foi
ainda questionado sobre a relação entre a crescente intolerância à
discordância e o progressivo desinteresse pela cultura e estudos
humanísticos. A sua resposta passou por diversos caminhos. É uma
questão bastante atual a de sabermos se realmente a cultura nos torna
melhores, como já foi referido por diversos autores, inclusive George
Steiner - que nos falou sobre o paradoxo da Segunda Guerra Mundial -
quando diversos agentes e políticos nazis que planeavam e dirigiam
massacres, eram também eruditos ao nível literário, musical e
artístico. Fala também, Pedro Mexia, da problematização da cultura
geral, a crescente procura pela facilitação de temas que não foram
exatamente criados para serem simplificados (dando o exemplo de
obras de Shakespeare que são editadas para facilitar cada vez mais a
compreensão de quem o estuda, mas há diversos outros exemplos
deste fenómeno). No que toca ao aspeto de desinteresse cultural e
humanístico, a pergunta que os desinteressados têm dificuldade em
responder é "porque é que isto haveria de ser útil?", questão que é
posta, por exemplo, ao estudo de línguas mortas como o latim. Na
verdade, este é um bom exemplo para incentivar os desinteressados: o
estudo de uma língua, seja ela qual for, serve-nos de grande utilidade
não só para melhor compreender aspetos técnicos e científicos por ela
transmitidos, mas permite-nos um tipo de empatia que talvez não seja
alcançável se não tivermos a possibilidade de entender o que é dito por
um grupo de pessoas que fala ou falara numa outra língua. Aliás, há
séculos que se discute o conceito de "bárbaro" como aquele que fala
uma língua diferente da nossa, aquele que não conseguimos compreender. Por outro lado, as "guerras culturais" que hoje se
propagam, acabam por ter, por natureza, um lado democrático e mais
abrangente, e um lado que pode ser classificado como "bárbaro", que
nos traz coisas às quais não estamos habituados. Contudo, um aspeto
que o poeta fez questão de salientar é que o lado negativo, bárbaro e ao
qual não estamos habituados, não deve ser retirado da discussão
abruptamente, pois também isso se torna perigoso. Comparou, ainda, o
pensamento que se difundia largamente nos tempos do Maio de 68,
onde os estudantes consideravam absolutamente "proibido proibir", ao
pensamento que se propaga em algumas ocasiões hoje nas quais o que
se procura fazer é proibir mais.
Ainda no que toca à relação entre a intolerância à discordância e o
desinteresse cultural, o dramaturgo José Maria Vieira Mendes destaca
o papel importante que o teatro pode ter na prevenção desta
problemática graças à sua flexibilidade, que nos permite não só
estimular o pensamento crítico individual, como oferecer algum sentido
ao mundo.
A grande questão da mesa redonda organizada pelo Grupo Clepsydra é:
"Isto serve para quê?", isto é, isto da cultura e das humanidades, para que
serve? Apesar de existirem variadas respostas que o próprio leitor
deste artigo pode dar, a crença em que os participantes tendem a
concordar é que o ponto fulcral não está na cultura em si, mas naquilo
que cada um decide fazer com ela.
É ainda dado um grande destaque à pergunta "podemos passar sem a
cultura e as humanidades?". Conclui-se que os estudos humanísticos são
absolutamente necessários para manter viva a memória da História,
para possibilitar a comunicação e interação ao longo do tempo através
da Linguagem, para abrir as portas ao mundo do pensamento crítico e
introspetivo através da Filosofia, que se aplica a todos os ramos do
saber. O desfecho que se retira desta conversa entre académicos de
áreas relativamente diferentes é o seguinte: a cultura e os estudos
humanísticos não existem, na sua essência, para serem úteis, e, ainda
assim, não podemos existir sem ambos.
Filipa Alexandra
