O (o)caso da Monarquia

18-09-2022

A 8 de setembro de 2022, foi emitido um comunicado pelo Palácio de Buckingham a anunciar o falecimento de Elizabeth II, a monarca britânica com o reinado mais longo da História, perfazendo 70 anos.

A morte de Elizabeth II significa mais do que apenas a morte de uma figura de Estado: é o encerrar de um ciclo político e representa, talvez, a maior rutura que a Monarquia Britânica testemunhou nos últimos 100 anos.

A Rainha Elizabeth era a representante principal de um passado sombrio de colonialismo, imperialismo, agressão, roubo e chacina. Não era a única culpada nem a única contestada, mas servia como "rosto" desse passado não tão distante.

Será que podemos culpar a Rainha por todos os pecados cometidos pelo e no Reino Unido? Evidentemente que não, até porque a rainha nunca governou realmente o país. No entanto uma análise mais meticulosa é importante para compreender a posição da rainha, que impacto teve durante o seu reinado.

Elizabeth II subiu ao trono depois da morte do pai, nos anos 50 do século XX, um período conturbado e cheio de dúvidas, de divisões e confrontos. Aquilo que herdou vem já manchado de sangue antes de lhe chegar às mãos. Era uma jovem conservadora, segura das suas convicções e dedicada, predisposta para a não intervenção nos assuntos políticos, até para situações onde o silêncio poderá não ter sido a sua melhor solução.

Privou com democratas, com ditadores e tiranos; assistiu a mudanças inesquecíveis na primeira fila e, mesmo assim, mantinha o silêncio. Foi esta a forma como decidiu reger a sua vida e atuar enquanto Rainha. Poderíamos tentar equacionar que variáveis teriam sido diferentes caso Elizabeth II tivesse tomado outras posições ou agido de forma diferente, mas de nada serviria. A História já passou por nós, está já escrita e dela consta Elizabeth II, em todas as boas e más decisões.

De ambos os lados da discussão acerca da legitimidade da monarquia (ou falta dela), surge um respeito coletivo pela pessoa que Elizabeth era, mesmo que se despreze tudo aquilo que a sua posição representava, e ainda representa, agora na pessoa do filho, o príncipe Charles, que assumirá o trono como Rei de Inglaterra.

Será que este novo rei tem futuro? Só o tempo dirá, mas as perspetivas não são positivas. Charles herda o mesmo passado sangrento, a mesma violência e exploração de outros povos; a isso acrescenta o escândalo da morte da sua ex-mulher, Diana, Princesa de Gales. A aprovação de Charles pela opinião pública é dúbia e poderá, inclusive, levar à queda da monarquia em Inglaterra.

Poder-se-á dizer que é apenas uma questão de tempo até tudo desmoronar, até o povo não aceitar mais a existência da Família Real: a Rainha Elizabeth II representava o último elo de união desta família, era o pilar que mantinha a imagem de estabilidade que, real ou não, mantinha o público britânico contente.

A partir de hoje, num mundo sem Elizabeth II, a vida pública e política da Família Real Britânica torna-se infinitamente mais difícil: o carinho que o povo tinha pela monarca é, provavelmente, irrepetível, principalmente devido a tantos anos de reinado e tanta firmeza perante escândalos e as mudanças naturais do mundo. Nenhum dos seus filhos tem o mesmo carisma ou o mesmo carinho das massas e tentar conquistar empatia ou simpatia neste momento será difícil. O mundo está a ver os próximos passos de Charles, William e Harry, que protagonizam, neste momento, uma dinâmica familiar bastante tensa, que talvez se agrave com a morte da matriarca da família Windsor.

A discussão mais importante a ser tida agora é, possivelmente, o passado colonial abjeto do Reino Unido e todos os outros episódios violentos que marcam a sua história recente, e não se a Rainha Elizabeth II seria a principal culpada.

Penso que o problema seja maior do que ela, até maior do que todos os membros seniors da Família Real: o problema é a suposta legitimidade e a existência de uma monarquia colonial e imperial que se estende num período tão grande. Claro que, no Reino Unido, a figura do monarca deixou de ser tão relevante ainda nos tempos de John Locke, quando se adotou a Monarquia Constitucional, mas a sua existência não deixa de ser a denúncia de algo mais: o Reino Unido foi continuando a sua História com a monarquia a existir cada vez mais como um "enfeite", contudo sem nunca se delimitar do seu passado violento e monstruoso; a vida continuou como se nada tivesse acontecido, como se o monarca não continuasse a herdar esse legado e não continuasse a representá-lo.

Elizabeth era, enquanto mulher e cidadã, enquanto mãe, avó e filha, alguém notável, que assistiu à História a acontecer e acabou por nela ficar, tendo tomado, ou não, as decisões mais acertadas; Elizabeth II, enquanto monarca durante 70 anos, representa, como qualquer outro rei, o pior do Imperialismo, do Colonialismo e da violência desproporcional. A sua imagem representa mais do que apenas a sua ação, e é isso que não pode ser confundido.

O argumento principal é o de que a fonte do problema não é a Rainha, é a monarquia como um todo. Com a morte de Elizabeth II, a questão da necessidade da monarquia não fica milagrosamente resolvida. O problema estender-se-á por décadas, talvez. O verdadeiro problema é o parasitismo característico da monarquia; é a não-aplicação de leis, é a fuga aos problemas. É a inexistência de qualquer voto de arrependimento em relação ao passado.

Infelizmente, não escolhemos quem fica, quem morre ou quem conta a nossa história: Elizabeth II fica na História por ter nascido numa posição de imenso privilégio e ter agido conforme a situação o exigiu - mesmo que condenável; a Monarquia Britânica ficará para sempre na História como um antro de violência imperialista que não tem motivos para existir, muito menos num mundo Moderno e num Reino Unido fragilizado e onde a reforma política urge.

A opulência da monarquia, que ostenta ouro roubado, deixou de ser necessária há muito, e nem Deus seria capaz de salvar a rainha de morrer com este legado.

Beatriz Mestre, Estudos Europeus, FLUL 

Núcleo de Estudos Europeus da Universidade de Lisboa
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