Oppenheimer (2023) e a Física do Arrependimento

Christopher Nolan relembrou-nos (mais uma vez) da nossa mera mortalidade através da sua genialidade cinéfila. Oppenheimer tornou-se num fenómeno mundial que depressa envolveu o público e a crítica na sua febre.
Ofereço um particular realce ao contraste apresentado entre a capacidade de um homem criar algo capaz de aniquilar qualquer indício da humanidade e, no dia seguinte, ainda conseguir esquecer-se de fazer o almoço.
Oppenheimer teve a sua estreia no mesmo verão que Barbie, num período que muito provavelmente será marcado na história do cinema como Barbenheimer – uma literal divisão do mundo entre o rosa e o preto. Estreou em Portugal e em Paris, no festival Le Grand Rex, a 11 de outubro de 2023, e nos Estados Unidos a 21 de outubro do mesmo ano.
O filme, baseado numa história verídica e no livro vencedor de um prémio Pulitzer: The Triumph and Tragedy of J. Robert Oppenheimer de Kai Bird e Martin J. Sherwin, descreve a história de J. Robert Oppenheimer (1904‑1967), o físico norte‑americano que liderou o Projeto Manhattan, responsável pelo desenvolvimento das primeiras (e únicas) bombas atómicas já utilizadas – Hiroshima e Nagasaki, 1945. Após a guerra, defendeu o controlo internacional da energia nuclear e opôs‑se à bomba de hidrogénio, o que lhe trouxe inimigos políticos. Em 1954 perdeu a sua autorização de segurança em audiências humilhantes. Morreu em 1967 como o "pai da bomba atómica" e marcado pelo peso moral da sua criação.
Relativamente ao elenco, o filme conta com a participação de Cilian Murphy que incorpora o próprio J. Robert Oppenheimer. Já enquanto personagens secundárias, temos Emily Blunt como Kitty Oppenheimer, Robert Downey Jr (sim, o Iron Man) como Lewis Strauss, e uma das minhas atrizes preferidas, Florence Pugh, como Jean Tatlock, entre muitos outros.
Oppenheimer foi muito bem aclamado pela crítica, tendo, entre sete nomeações para os Óscares, ganho os títulos de melhor filme do ano, melhor diretor (Christopher Nolan), melhor ator principal (Cilian Murphy), e melhor ator secundário (Robert Downey Jr).
Ver este filme foi sem dúvida alguma uma experiência envolvente. Tenho de confessar que as minhas primeiras impressões foram inundadas por uma certa confusão.
Se alguma vez olharam para um manual de física e sentiram arrepios, os meus parabéns... já deram o primeiro passo para entender um terço de Oppenheimer.
Tudo parece encaixar de forma extremamente subtil e minuciosa. A cinematografia é simplesmente incrível. A forma como Nolan conjuga o plano e a música que acompanha uma cena, conduzindo os diferentes estados de espírito de Oppenheimer ao longo do filme, é de uma delicadeza notável. Por exemplo, na cena após o lançamento da bomba atómica, surge uma montagem de rostos totalmente negros, e com ela uma imersão num crescendo e diminuendo da melodia capaz de transmitir, de forma precisa, as emoções associadas ao momento. Seja euforia, incerteza, ou ambas, é certo que estão totalmente incorporadas na música. Sugerem uma ironia propositada, talvez apelando ao arrependimento da personagem, atormentado pelas próprias ações. Toda esta cena é transmitida como se fosse uma espécie de "sonho", que "embala", ou até um pesadelo. No final, a música chega até a ser um pouco "desconfortável" e "distorcida", de modo a reforçar este ponto. O uso do violino ao longo do filme é bastante recorrente, e achei curioso este detalhe afirmado por Ludwig Göransson, o génio por trás da música, um sueco vencedor de um Óscar, o uso deste instrumento pretende transmitir uma sensação de presságio. Por exemplo, "Can You Hear The Music", música que acompanha a cena de Oppenheimer a desenvolver a ideia da bomba atómica, é apresentada de forma simultânea a uma montagem de cores completamente dispersas, o uso do violino pressupõe uma ideia de perigo.
A história está muito bem retratada. Confesso que o meu detalhe preferido foi a representação das cenas do julgamento a preto e branco. O jogo de cores representa toda uma experiência subjetiva com diferentes pontos de vista e perspectivas que se contrastam. Enquanto a utilização de cores sugere uma perspetiva mais pessoal de Oppenheimer, o preto e branco representa uma visão mais objetiva da história (associada à perspetiva de Lewis Strauss) - o realizador propositadamente gravou estas cenas num formato mais antiquado para efeitos visuais/artísticos. A própria sala do julgamento (Sala 2022), estava repleta de mobília antiga, fita e paredes marcadas. Todos estes fatores contribuem para a caracterização do estado mental de Oppenheimer: desconforto, constrangimento e humilhação.
Christopher Nolan parece "brincar" bastante com a cinematografia. Reparei que, afastando-se de outro instant classic, Interstellar (2014), este filme utiliza mais montagens. Repare-se na cena do Trinity Test (bomba), na qual o realizador optou pelo uso de efeitos práticos em vez de CGI para que fosse mais real, visceral, assustador e impactante. Aliando-se este fator à intensidade do som das explosões e do subsequente silêncio (os trinta segundos que seguem o lançamento da bomba são de cortar a respiração) obtém-se a receita perfeita para uma total imersão num dos momentos mais marcantes da história contemporânea.
Pessoalmente, sinto que Oppenheimer retrata muitíssimo bem a cegueira moral em função do objetivo profissional, sendo a culpa nuclear um elemento constante durante o filme. A forma como ninguém sente culpa ou qualquer remorso durante o decorrer dos testes, tendo perfeita noção da destruição que iria ser causada, oferece especial preponderância a este fator.
No fim, Christopher Nolan remata o filme com uma perfeita síntese da hipocrisia humana: a criação; a destruição; e a terrível consciência de quem percebeu demasiado tarde o que fez.
Seremos nós a verdadeira bomba atómica, capazes de alcançar e superar fronteiras inimagináveis, mesmo sendo apenas constituídos de partículas e átomos?
Beatriz Silva
