Os esqueletos no armário da FIFA e do Governo do Qatar

28-11-2022

Geralmente, durante o período de duração do Campeonato do Mundo de Futebol da FIFA, todos planeamos a nossa vida em função dos horários dos jogos, para aproveitar o nosso verão da melhor maneira, sendo este evento futebolístico (o maior do mundo) uma grande fonte de bons momentos em família e com amigos.

Mas não no verão de 2022, já que o mundial nem sequer se realizou no seu período tradicional, graças a problemas logísticos relacionados com o país anfitrião do campeonato do mundo: o Qatar.

Como outros países da sua região, o Qatar é conhecido pelas mais variadas violações de Direitos Humanos e crimes associados, não sendo necessariamente surpreendente tudo aquilo que aconteceu na preparação do mundial de 2022.

Não é surpreendente, mas não deixa de ser abjeto:

Tudo começa com o facto de que o Qatar, por não ter particular cultura futebolística, não detinha as infraestruturas necessárias para sediar um campeonato do mundo, o que significa que teve que as construir para o fim.

Começam aqui as violações dos Direitos Humanos dos trabalhadores migrantes empregados na construção dos estádios, sem pagamento digno ou condições de segurança e habitação. Os estádios onde, neste momento, se erguem bandeiras de todo o mundo e se canta com alegria são um produto direto de semiescravatura e abuso de trabalhadores.

Segundo o relatório apresentado pela Amnistia Internacional [1], 1,7 milhões de trabalhadores sofreram de abusos durante a construção dos estádios que recebem hoje o campeonato do mundo, numa demonstração claríssima de que as promessas que o Qatar fez à FIFA e restantes intervenientes, como patrocinadores, foram apenas conversa de ocasião - diriam tudo o que fosse preciso para serem a sede do próximo mundial, e os danos já estão à vista.

Além do claro abuso dos trabalhadores e condições de trabalho forçado na construção das infraestruturas, também ao nível da censura temos vindo a testemunhar casos revoltantes: algumas seleções nacionais, como a da Alemanha, planeavam ter, nas suas braçadeiras de capitão, um arco-íris, em apoio e homenagem à comunidade LGBTQIA+, que sofre os mais vis abusos diariamente, não só no Qatar, mas com especial violência lá.

Mesmo depois de garantir à FIFA que todos seriam bem-vindos na festa do futebol, o governo qatari preferiu ignorar o abuso policial em relação a adeptos estrangeiros e, como se diz por cá, "sacudir a água do capote".

O mundial já está a acontecer, o que pode fazer a FIFA neste momento, na eventualidade de querer punir o Qatar?

Também não é como se quisesse, já que decidiu proibir a seleção belga de utilizar camisolas de aquecimento coloridas e baniu as braçadeiras de capitão com arco-íris, sob punição de cartão amarelo e multas pesadas aos países que persistissem, naquilo que constitui, claramente, uma tentativa de censura para tentar agradar ao governo ultraconservador e ultrarreligioso do Qatar, que, neste momento, está a sediar um dos maiores eventos desportivos do planeta e não pode (nem quer) garantir a adeptos que viajaram dezenas de horas para acompanhar as suas seleções que não terão os seus bens confiscados devido à presença de um ou outro arco-íris, ou qualquer outro elemento que as autoridades considerem "inadequado". O critério é arbitrário e ninguém está livre de ser revistado e ter bens apreendidos pela polícia.

Não sendo o objetivo deste artigo uma aventura pela discussão do relativismo cultural, resta o apelo a uma reflexão sincera sobre o que se passa e sempre se passou no Qatar; sobre a (i)legitimidade de um campeonato que decorre em construções fruto de escravatura; sobre se o dinheiro justifica qualquer atropelo violento aos Direitos Humanos e um convite ao envio de donativos à Amnistia Internacional, que pretende proteger os trabalhadores migrantes abusados durante todo este processo e as suas famílias.

Que todos se lembrem dos esqueletos no armário da FIFA e do governo qatari por muitos anos: o dinheiro não compra dignidade.


[1] Mundial Qatar 2022 - Abusos, Exploração e Trabalho Forçado, 2022


Beatriz Mestre, Estudos Europeus, FLUL 

Núcleo de Estudos Europeus da Universidade de Lisboa
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