Recordando o Maio de 68

Autora: Joana Leal
Quem hoje circula pelo Quartier Latin, famoso bairro parisiense cujas origens remontam à Idade Média, estará, possivelmente, pouco ou nada consciente dos eventos que há 56 anos naquelas ruas tomaram forma. Pois bem, entre Maio e Junho de 1968, Paris tornou-se palco de uma aguerrida luta estudantil — posteriormente expandida para o restante amplexo do espectro social — que desembocaria numa crise política que fez tremer Charles de Gaulle e demais líderes nacionais. Tudo o que o Maio de 68 foi, as suas causas, as consequências que acarretou e aquilo que significou, continua, em grande parte, por escrutinar, porém, é inegável a relevância que tal acontecimento tem para a actualidade e para o entendimento das sociedades contemporâneas democráticas do Ocidente capitalista.
As origens do Maio de 68 são múltiplas e um exame aprofundado da conjuntura social, económica e política da França daquela época expandir-se-ia para além do âmbito deste curto texto. Como tal, atentarei apenas nas causas imediatas, evitando, contudo, proceder a uma análise superficial e irrelevante. Tendo este movimento as suas raízes na luta estudantil, assume-se como essencial uma curta exposição dos motivos de revolta dos jovens universitários franceses, porém, será porventura igualmente importante apontar os motivos que levaram o operariado francês e demais camadas sociais a terem aderido à luta dos estudantes (afinal, estamos perante grupos sociais que, à partida, pouco teriam em comum). Por fim, promovo uma curta análise do desfecho desta revolta social e daquilo que se pode concluir.
De facto, motivos para protestar era algo de que os estudantes universitários franceses não careciam. O arcaísmo do sistema de ensino superior da França contrastava de forma latente com a modernização que estava a ser concretizada e com as exigências da sociedade que se tinha vindo a desenvolver nos pós-Segunda Guerra Mundial; as repercussões de tal desfasamento cedo surgiriam. Deste período, denota-se o crescimento económico significativo, a construção de um estado social robusto e o papel pioneiro que a França assumiu no projecto de integração europeia. No seio do sistema de ensino superior francês, a burocratização e centralização dos processos de decisão deixavam as universidades com pouca autonomia. Isto, a par da standardização dos percursos curriculares e métodos de avaliação, produzia uma considerável uniformização dos cursos de ensino superior e uma homogeneização das possíveis opções de carreiras profissionais. Somando ainda o aumento do número de estudantes universitários a um ritmo que as infraestruturas e os recursos nacionais não eram capazes de dar resposta, o existente elitismo entre as universidades e as denominadas grandes écoles (prestigiadas instituições de ensino superior herdadas do período napoleónico) e a quase total ineficácia da reforma na educação levada a cabo por Charles de Gaulle, tornam-se mais claros os motivos para o descontentamento estudantil que iria inundar a França.
Após protestos e confrontos entre alunos e forças policiais na faculdade de Nanterre, um subúrbio parisiense, os estudantes da Sorbonne (célebre instituto de ensino superior localizado na capital) organizaram-se em solidariedade, levando à evacuação do recinto. Estava-se a 3 de maio de 1968 e aquilo que, inicialmente, aparentava ser meramente um conjunto de estudantes privilegiados ("meninos da mamã", como alguns de forma infeliz os chegaram a apelidar) revoltados com o sistema de ensino em França, rapidamente, atingiu proporções inimagináveis; para surpresa de muitos, os operários e amplas esferas sociais reviram-se na luta estudantil e mobilizaram-se em seu apoio. O resultado: em meados de maio, não só em Paris, mas por toda a França, o número de trabalhadores em greve aproximava-se dos 10 milhões. Saía-se às ruas por questões estudantis e laborais, mas também pelo fim do capitalismo, pelos direitos das mulheres e das pessoas homossexuais e para exigir justiça e dignidade por todos aqueles que continuavam a ser explorados no chamado terceiro mundo e pelo fim das guerras. Um enquadramento teórico estruturado e claramente delineado para os protestos que varreram a França foi algo que nunca propriamente existiu, a espontaneidade e a luta por um amplexo de aspectos prevaleceram, motivo pelo qual o Maio de 68 se afigura como uma revolta social generalizada tão complexa e de difícil análise.
O Maio de 68 não incluiu apenas greves e paralisações. Várias fábricas, por todo o país, foram ocupadas pelos trabalhadores, entre as quais a fábrica Sud-Aviation de Bouguenais, em Nantes, (a direção da empresa foi inclusivamente feita refém) e a fábrica Renault-Cléon no Seine-Maritime. Estas ocupações ocorreram pouquíssimos dias depois da grande greve de 13 de Maio de 1968, que foi considerada como o marco da passagem da dimensão estudantil dos protestos à dimensão operária; neste dia, estima-se que cerca de 600 mil pessoas saíram à rua na capital francesa, noutras cidades, como Marselha e Toulouse, os números foram de 150 mil e 40 mil, respectivamente.
A ocupação dos locais de trabalho pelos trabalhadores está em estrita relação com aquilo que foi um dos temas principais do Maio de 68: a chamada "auto-gestão". A auto-gestão foi um termo empregue tanto pelos estudantes, que a reclamavam no seio das instituições de ensino, quanto pelos operários, que a queriam implementar nos seus locais de trabalho, e revela-se importante, pois incorpora muito daquilo que o Maio de 68 representou, nomeadamente, a superação do papel dos sindicatos, a importação da democracia directa para os vários espectros da vivência social e, pode ainda ser encarada como um dos elos de ligação entre a luta estudantil e a operária.
Desde há décadas que se entendia que cabia essencialmente aos sindicatos, especialmente aos sindicatos associados a partidos políticos, incluindo o Partido Comunista Francês (PCF), ordenar e dirigir a luta operária. Ou seja, cabia à força organizada a partir da qual o operariado se fazia representar expressar as reivindicações dos trabalhadores e coordenar os processos necessários para as concretizar, e não propriamente aos trabalhadores como grupo coeso. É inegável tudo aquilo que estes referidos sindicatos alcançaram e o seu papel foi mais do que crucial na luta operária. Porém, havia também algumas limitações, e os próprios trabalhadores, por vezes, estavam descontentes com os resultados alcançados e com o modo como eram incluídos nos processos negociais e de decisão. Por este motivo, algo que, em alguns casos, se observou durante os protestos e ocupações foram os operários a organizarem-se de forma independente sem o suporte de organizações sindicais, criando formas de representação directa no seio dos locais de emprego e indo mesmo contra aquilo que os sindicatos recomendavam (de um modo geral, os sindicatos opuseram-se ao início das ocupações). Os sindicatos, reportando-se à estrutura institucional e política estadual, apenas podiam fornecer soluções que nesta estrutura se enquadrassem. Porém, aquilo que muitos dos trabalhadores desejavam não poderia ser alcançado em tal sistema e, por conseguinte, enveredaram por formas de acção espontânea e preferiram a organização directa em detrimento do vanguardismo dos sindicatos. Não obstante, constata-se que os sindicatos continuaram a ser relevantes durante os acontecimentos, tendo grande importância naquilo que se refere à organização de greves e ao estabelecimento de redes de comunicação num momento em que a falta de coordenação reinava.
Sustenta-se também que a auto-gestão era algo que unia os estudantes e os trabalhadores. Isto pode parecer equívoco, afinal a vivência estudantil não é semelhante à laboral, no entanto, tal não é necessariamente verdade. Atentando-se no modo como as instituições de ensino superior e os locais de trabalho e empresas eram geridos, percebe-se que eram estruturas não propriamente democráticas em que todos os participantes tinham o mesmo poder de decisão. Assim sendo, entende-se que tanto estudantes quanto trabalhadores, do mais variado tipo, almejavam alcançar um modo de gestão dos seus locais de ensino e de trabalho, respectivamente, em que as suas vontades pudessem ser mais bem expressas e alcançassem um resultado efectivo. O raciocínio era simples: faculdades serviam os estudantes e sem eles não teriam utilidade, as unidades produtivas necessitavam dos trabalhadores para alcançarem os resultados requeridos, logo, o mais acertado e a única forma de criar uma estrutura democrática era incluir tanto os estudantes quanto os trabalhadores nos processos de decisão e da gestão das suas instituições. Neste sentido, as lutas estudantis e operárias eram tangentes, o que se verificou aquando da adesão dos trabalhadores àquilo que, anteriormente, era apenas um protesto estudantil.
Os protestos prolongaram-se e intensificaram-se, tendo grande parte dos processos negociais falhado e os confrontos sociais alcançavam níveis tenebrosos. Face a tal contexto de revolta social e enorme instabilidade política, era difícil de antever o rumo que tais acontecimentos iriam tomar e aquilo que no mês seguinte iria acontecer. Após intensos protestos, greves, confrontos, ocupações e o encerramento de múltiplos outros locais de ensino e de trabalho, algo estava prestes a alterar-se. Charles de Gaulle, presidente da República, num conhecido discurso radiofónico emitido a 30 de maio, dissolve a Assembleia Nacional e chama o país às urnas. Num momento, tudo pareceu alterar-se. No mesmo dia, quase um 1 milhão de apoiantes de de Gaulle enche os Champs-Elysées e, nos dias seguintes, manifestações análogas repetem-se. O espírito revolucionário que, durante semanas, inundou as ruas das principais cidades francesas dissipou-se paulatinamente; os protestos tornaram-se mais esporádicos e menos intensos, as aulas nas escolas e faculdades regressaram ao seu ritmo e, com maior ou menor vagar, retomou-se o quotidiano. O golpe fatal àquilo que a França tinha presenciado foi desferido no mês seguinte, aquando da realização das eleições (entre 23 e 30 de Junho do mesmo ano) — surpreendentemente, depois de milhões de indivíduos ideologicamente da ala esquerda política terem tomado as ruas e feito o poder político tremer, a direita venceu nas urnas.
Afigura-se árduo compreender o que levou os protestos do Maio de 68 a tal desfecho, especialmente face à velocidade com que foram dissolvidos, sendo que durante cerca de um mês França ficou paralisada e à beira de um colapso do sistema político. Amiúde se atribui a causa do início das movimentações ao vazio no poder deixado por Charles de Gaulle e Georges Pompidou (primeiro-ministro francês) durante as primeiras semanas de Maio (Pompidou chegou mesmo a abandonar o país nos primeiros dias); tendo os principais líderes políticos do país dado pouca relevância ao início das movimentações, foi fácil estas alcançarem grandes proporções, e apenas quando de Gaulle se impôs em força novamente é que os ânimos acalmaram. Porém, é possível que haja algo mais, na verdade, talvez o Maio de 68 estivesse mesmo condenado a "fracassar" desde o início. Não quero com tal descartar tudo aquilo que os estudantes e os trabalhadores alcançaram com os seus protestos e ocupações. Foi aliás, muitíssimo importante, provou que mesmo num país desenvolvido, politicamente estável e democrático é possível expressar um sentimento de revolta generalizado e uma vontade colectiva de mudança aos mais amplos níveis da vivência social. Neste sentido, o Maio de 68 não fracassou, porém, grande parte daquilo que era exigido e reivindicado continuou por cumprir, a reforma feita ao ensino superior francês deixou por responder muito daquilo que os estudantes exigiam e as concepções feitas aos trabalhadores eram migalhas em comparação àquilo pelo qual lutavam durante as greves e ocupações.
Afinal, num país como a França, cujas características e traços essenciais já foram delineados, seria possível que uma revolta social generalizada que exigia a auto-gestão, a democracia directa, formas alternativas ao capitalismo e uma mudança generalizada da participação política triunfasse? Muito possivelmente, não, o que, no entanto, não impediu aqueles milhões de pessoas de o tentarem e de ousarem fazer frente a um sistema que parecia estar enraizado (não esqueçamos a crise política e social que se gerou e a efectiva possibilidade que houve de o governo ruir). O Maio de 68 provou a dificuldade que movimentos sociais deste tipo têm em triunfar no seio das actuais sociedades ocidentais, democráticas e capitalistas, levando mesmo a questionar se, porventura, como muitos desejam, será possível alterar esta conjuntura e edificar um sistema económico e político não-capitalista que não se baseie unicamente na democracia representativa.
Idos 56 anos do Maio de 68, resta a constatação dos desafios que os movimentos esquerdistas têm pela frente e também do seu muito provável fracasso. Contudo, fica também a esperança dos milhões que inundaram as ruas francesas, na luta por um futuro diferente, melhor e mais justo. Que recordemos o Maio de 68 como foi: um amplo movimento social anti-autoritário e anti-hierárquico, preconizador da acção directa, capaz de abarcar um largo espectro de reivindicações e que, sobretudo, provou a capacidade de acção das massas, quando unidas. Em vão, com certeza não foi, e cabe-nos recordar a sua memória, estudar e analisar as suas acções e, se assim quisermos, tal como eles, acreditar na possibilidade de uma alternativa, mesmo face a todos os obstáculos.
Fontes:
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Astarian, Bruno. Les Grèves En France En Mai-Juin 1968. Echanges Et Mouvement, 2003.
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Sowerwine, Charles. France since 1870: Culture, Politics and Society. Bloomsbury Publishing, 2018.
