SREBRENICA – A cidade que morreu em 1995

13-08-2025


Autor: Rodrigo Freitas


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SREBRENICA. Estamos no centro da antiga Jugoslávia. No leste da atual Bósnia e Herzegovina. Na fronteira com a atual Sérvia. Nas margens do Drina. Ademais, a mesma distância para Sarajevo e Belgrado. O município não tem mais habitantes do que Serpa, Óbidos ou Sines. A cidade, ainda menos. Em 30 minutos, caminha-se tranquilamente pelo centro. São pouco mais de dois quilómetros quadrados. 30. Não é em vão. 30 anos se passaram desde o único acontecimento marcante – ou quase –, aquele que elevou, por más razões, o seu nome no panorama internacional. Muitas vezes é assim, há mais História em 250 hectares do que numa grande capital.

1995. O Município de Srebrenica tinha o triplo da população. Na cidade, vivia o dobro. Sobretudo – e como esperado – bósnios e alguns sérvios.

30 anos depois, estão "em pé de igualdade". Nalgumas localidades, já não há bósnios. O que resta é a memória. Essa nunca desaparecerá. A indústria esvaneceu-se. As fábricas de metal, as minas de ouro, prata, zinco e chumbo deram lugar a descampados. Do Complexo de Crni Guber – que atraía imensidões de turistas –, restam as ruínas. A cidade, outrora em crescimento, está complemente destruída. Os cidadãos bósnios, arrasados.

Recuemos um pouco no tempo, até 1991, 1992.

A Jugoslávia começa a dissolver-se. Previsível e inevitável. Não por culpa de Tito – ou melhor, pela sua morte –, como muitos afirmam. A gestão danosa dos tributos dos cidadãos, o regime desgastado e as tensões étnicas, levaram ao crescimento dos movimentos nacionalistas/separatistas. Pouco unia os cidadãos deste país. Religiões diferentes, alfabetos diferentes, objetivos diferentes. Primeiro a Eslovénia, depois a Croácia. Até aqui, a tranquilidade reinava – apesar de alguns conflitos. Segue-se a Bósnia e Herzegovina. Entre muçulmanos, católicos e ortodoxos; entre bósnios, croatas e sérvios; entre referendos e eleições; entre ustaše, partizani e četnici, ninguém se entendia.

A Guerra da Bósnia decorria há três longos anos, sendo que o objetivo dos sérvios era sempre o mesmo: expulsar as populações junto à fronteira, para que pudessem ocupar e expandir o seu território – e, quem sabe, chegarem ao Adriático. Foi assim desde o começo até chegarmos a julho de 1995, altura em que tudo se agravou. As forças lideradas por Radovan Karadžić – líder da Republika Srpska e Comandante Supremo das Forças Armadas Sérvias da Bósnia – e por Ratko Mladić, encabeçadas pelo "Todo-Poderoso" de Belgrado, Slobodan Milošević, penetraram na "zona de segurança" indicada pela ONU e devastaram-na por completo, vitimando cerca de 8000 bósnios muçulmanos – dificilmente terão sido "tão poucas" as mortes… muito mais civis desapareceram, enquanto tentavam fugir… em buracos, túneis, campos de concentração, florestas, em qualquer sítio possível e imaginário. Os vestígios em valas comuns são infindáveis, com ossos espalhados pelo chão.

Mladić dá por concluída a operação, afirmando a um jornalista sérvio "entregamos esta cidade à Nação sérvia… chegou a hora de nos vingarmos dos muçulmanos".

3 dias – embora um pouco mais do que isso oficialmente – bastaram para "varrer" milhares de civis desarmados pelas forças da ONU. E os poucos que fugiram, certamente, nunca mais regressarão à sua terra natal. Os Capacetes Azuis, em missão das Nações Unidas e em pequena escala – cerca de 200 soldados neerlandeses –, pouco puderam fazer. Estava consumada a vitória da operação "Krivaja 95".

De positivo, sobra pouco. Um grupo de cerca de 6 mil pessoas, intitulado "Mãe de Srebrenica", tem vindo a desenvolver atividades que promovam um bem-estar social – e acima de tudo religioso – no país, para que todos possam viver com qualidade, independentemente da sua etnia, sublinhando a importância de educar as crianças, para que nunca permitam que semelhante situação se repita.

Por outro lado, a partir deste ano, celebra-se a 11 de julho o "Dia Internacional de Reflexão e Memória do Genocídio de 1995 em Srebrenica", por iniciativa da Assembleia Geral da ONU, que aprovou o texto, em 2024, com 84 votos a favor, 19 contra e 68 abstenções. Aleksandar Vučić, conhecido por muitas outras más razões, afirma que a resolução está "altamente politizada" e que irá "abrir uma ferida antiga e criar um total caos político". De resto, são declarações bastante controversas – bem que poderíamos utilizar outros vocábulos –, vindas de um Presidente que tem olhado para muita coisa, menos para o bem-estar do seu povo – e de outros.

O Tribunal Penal Internacional para a Ex-Jugoslávia (TPIJ) fez o seu trabalho: julgou os responsáveis. Ratko Mladić e Radovan Karadžić, ambos vivos atualmente, foram condenados a prisão perpétua. Slobodan Milošević faleceu em 2006 sem uma acusação formalizada, embora tenha sido detido por diversas vezes. No total, foram condenados 89 indivíduos: 62 sérvios, 18 croatas, 5 bósnios, 2 montenegrinos, 1 macedónio e 1 albanês, pese embora a lista inicial contemplasse praticamente o dobro das pessoas.

Noutra dimensão, em 2011, um tribunal neerlandês determinou, pela primeira vez, que um país fosse responsabilizado pelas suas ações enquanto operava sob comando da ONU. Na acusação, foi dado como provado que as tropas proibiram três civis bósnios de fugirem da "zona de segurança", culminando na morte dos mesmos. Em 2014, o Governo neerlandês foi condenado a pagar indemnizações às famílias de mais de 300 homens e crianças que faleceram durante o massacre, embora uma decisão posterior levasse a que tivessem de pagar apenas 30% do valor total das reparações.

Para além dos elevados custos financeiros e das perdas humanas registadas, ficam ainda alguns pontos por explicar, nomeadamente quão informados estavam os EUA sobre estes ataques.

Posto isto, importa mencionar, com alguma estranheza, que a região atualmente continua a ser administrada pela Republika Srpska, fruto dos Acordos de Dayton, que dividiram o território da Bósnia e Herzegovina em dois – e uma zona "neutra". As sucessivas reivindicações dos poucos bósnios muçulmanos que lá resistem não têm dado frutos. Do outro lado, os sérvios ameaçam declarar a independência da região, caso ocorra algum movimento inesperado.

Muito pouco resta por dizer. E o que resta, já é conhecido. Srebrenica, uma cidade de trabalhadores do setor industrial, com estrutura para crescer, com condições para tal, ficará para sempre na memória de todos – pelo menos, daqueles que se dignarem a estudar o passado – como um local que vitimou milhares, destroçou quilómetros, destruiu uma civilização, um povo, uma cultura.

Do crescimento à morte em poucas horas, com a nostalgia daqueles que ficam.

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