Terá Winston Churchill contribuído para a Integração Europeia?

09-05-2025
Oliver Cole
Oliver Cole

Autora: Leonor Guimarães



Breve Biografia

Winston Leonard Spencer-Churchill nasceu a 30 de novembro de 1874 no Palácio de Blenheim, em Oxfordshire, Inglaterra, e faleceu a 24 de janeiro de 1964, em Londres. Filho de Lord Randolph Churchill e de Jennie Jerome e neto do sétimo Duque de Marlborough, Winston vinha de linhagem inglesa e americana, tendo nascido na família aristocrata Spencer.

Winston, num dos seus livros, descreve a sua infância como tendo sido feliz até à sua ida para a escola: "Sentia-me (…) bastante infeliz com a ideia de me deixarem sozinho (…) naquele lugar enorme, temível, intimidante. Afinal de contas tinha apenas 7 anos e tinha sido até aí, muito feliz no meu quarto de recreio (…). Como odiava aquela escola e que vida de ansiedade lá vivi durante mais de dois anos!".


Passou depois a frequentar Brighton e mais tarde Harrow, sendo que Churchill recorda a sua vida escolar com desaprovação: "Ficou evidente que o coração de Winston Churchill se tinha endurecido em relação à escola, o ensino obrigatório e o seu estilo de educação".

Ainda com 20 anos de idade, Churchill não tinha passado o exame do secundário, tal tinham sido as suas complicações com a escola e era visto como um"embaraço para a família". Porém, entre os seus 20 a 25 anos, foi "o tempo mais feliz da sua vida"– após terminar o liceu, consegue (à terceira tentativa) entrar em Sandhurst, aReal Academia Militar em 1893, dando assim inicio à sua carreira militar, tendo participado em 5 campanhas: em Cuba onde combateu ao lado dos espanhóis na Guerra da Independência; na Índia por duas vezes; no Sudão; e na África do Sul. Tornou-se também oficial de carreira, tenente de Hussardos; ganhou quatro medalhas e ainda uma Ordem de Mérito.

Encontrou também grande vocação na escrita, tendo sido jornalista, correspondente de guerra e escrito uma panóplia de livros.

A sua outra profissão e a de enorme destaque é sem dúvida a política. Churchill começou a sua vida política pelo ano de 1899, quando se candidatou ao círculo eleitoral em Oldham, porém, não saiu vencedor. Em outubro do mesmo ano, eclodiu a Guerra Anglo-Boer na África do Sul, da qual Churchill foi participante. Os relatos de guerra relativos à atuação de Churchill cativaram muito as pessoas, sendo visto como um herói: salvou feridos, foi feito prisioneiro, conseguiu fugir, vagueou durante vários dias, e conseguiu escapar para Moçambique, escondido num comboio por baixo de pilhas de carvão.

O herói do momento pediu para ser reintegrado como oficial e continuou a lutar na campanha tendo sido bem-sucedido: "Não se podia ser mais brilhante. O país inteiro continuava a falar dele". Assim, em 1900, Churchill abandonou o exército e voltou acandidatar-se ao antigo círculo eleitoral tendo obtido a vitória, assumindo assim, pela primeira vez, presença no Parlamento inglês. Este foi eleito pelo Partido Conservador, mas passados apenas 4 anos, mudou-se para o Partido Liberal.

Winston assumiu vários cargos políticos destacando-se: Subsecretário das Colónias, Ministro da Economia, Ministro do Interior, Primeiro Lorde do Almirantado, Chanceler do Ducado de Lancaster, Ministro do Armamento, Ministro das Colónias, Chanceler do Tesouro, tendo sido nomeado Primeiro-Ministro em 1940 e novamente em 1951.

Churchill destaca-se entre vários aspetos pela sua dedicação à escrita, à política e à própria Grã-Bretanha.

Cronologia

1874 – Nascimento de Winston Churchill a 30 de novembro no Palácio de Blenheim em Oxfordshire

1888 – Frequenta a escola de Harrow

1893 – Ingressa na Academia Militar Real de Sandhurst

1895 – Comissionado como oficial do Quarto Hussardos

1996-99 – Serviço Ativo na Fronteira Noroeste da Índia e no Sudão

1899 – Relata a guerra na África do Sul e foge de um campo de prisioneiros em Boer 1900 – Eleito, em outubro, deputado conservador em Oldham

1904 – Junta-se ao Partido Liberal, em maio

1905 – Nomeado Subsecretário Parlamentar das Colónias, em dezembro

1908 – Presidente da Junta Comercial. Derrotado nas eleições suplementares em Manchester Noroeste. Eleito deputado liberal por Dundee. Casa-se com Clementine Hozier, em abril

1910 – Nomeado Secretário do Interior, em fevereiro

1911 – Nomeado Primeiro Lorde do Almirantado, em outubro

1915 – Ataque naval em Dardanelos, transferido do almirantado em maio. Junta-se ao exército na Frente Ocidental, em novembro

1916 – Comanda o Sexto Batalhão, Royal Scots Fusiliers, de janeiro a maio 1917 – Ministro das Munições, em julho

1919 – Secretário de Estado de Guerra e da Aeronáutica,

1921 – Secretário de Estado das Colónias, em janeiro

1924 – Nomeado Chanceler do Tesouro

1925 – Retorna a Grã-Bretanha ao padrão-ouro, em abril

1930 – Publica o livro Os Meus Primeiros Anos

1935 – Ingressa no subcomité de Pesquisa de Defesa Aérea

1936 – Apoia o Rei Eduardo VIII na crise de abdicação, em dezembro

1939 – Nomeado Primeiro Lorde do Almirantado. Começo da Segunda Guerra Mundial

1940 – Nomeado Primeiro-Ministro e Ministro da Defesa, a 10 de maio

1945 – Fim da Segunda Guerra Mundial. Churchill renuncia ao cargo de Primeiro-Ministro, mas permanece como deputado para Woodford

1946 – Faz o discurso da "cortina de ferro" em Fulton, Missouri, em março. Realiza o discurso dos "Estados Unidos da Europa" na Universidade de Zurique, em setembro

1948 – Publica o livro Gathering Storm, o primeiro dos seis volumes sobre a Segunda Guerra Mundial; participa na Conferência de Haia

1949 – Participa na primeira sessão do Conselho da Europa em Estrasburgo

1951 – Nomeado novamente Primeiro-Ministro e Ministro da Defesa

1953 – Premiado com o Prémio Nobel da Literatura, em outubro

1955 – Renuncia ao cargo de Primeiro-Ministro, a 5 de abril

1964 – Aposenta-se da Câmara dos Comuns, em junho

1965 – Falece em Londres a 24 de janeiro. Funeral de Estado a 30 de janeiro. Enterrado no cemitério de Bladon, perto de Blenheim, em Oxfordshire

Integração Europeia

A Europa no século XX passou por duas grandes e destruidoras guerras, que tanto impactaram como arrasaram com a realidade que havia até então. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) resultou num total de 10 milhões de mortos, tendo levado ao desmoronar de grandes Impérios europeus e, consequentemente, à criação da Sociedade das Nações, que acabou por fracassar. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) atingiu os 60 milhões de mortos, tendo destruído as estruturas e os alicerces políticos e económicos tanto da Europa como do resto do mundo.

Assim, a necessidade de transformação passou a ser algo comum aos Estados, levando então à criação de uma nova ordem europeia que significou um grande e gradual processo de integração.

Deste modo, a integração europeia alude ao processo de união e de cooperação entre as várias nações europeias, que contou com maiores avanços após a Segunda Guerra Mundial, tendo por objetivos uma maior integração económica, social e política; a promoção de paz, estabilidade e desenvolvimento; e impossibilitar o surgimento de novos conflitos armados.

Alguns momentos de maior destaque que marcaram a integração da Europa são, nomeadamente, a Declaração Schuman (1950), apresentada pelo então Ministro Francês dos Negócios Estrangeiros, Robert Schuman, que conduziu à criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço em 1951. Seguiu-se assim a Comunidade Económica Europeia (1957) e os seus conseguintes alargamentos à entrada de novos Estados-membros (primeiro alargamento em 1973 – Reino Unido, Dinamarca e Irlanda); a fundação da União Europeia com o Tratado de Maastritch (1993); e a consagração da União Económica e Monetária com a adoção da moeda única – o Euro; entre outros.

Dizer que alguém ou algo contribuiu para a integração europeia significa que este teve um impacto e que, de facto, ajudou e cooperou de modo a tornar a Europa num continente mais coeso e integrado.

Churchill e a Integração da Europa

A Relação de Churchill com a Alemanha e França e uma Europa Unida

"Depois de duas guerras, ele iria trabalhar pacientemente pela causa da reconciliação Franco-Alemã" 

Para encetarmos a abordagem ao papel de Churchill na Europa, devemos começar pela relação de Winston com as duas potências europeias: Alemanha e França.

Antes dos eventos da Primeira Guerra Mundial, Churchill chegou a demonstrar admiração pela Alemanha no que toca à sua legislação de bem-estar social, tendo ficado impressionado com o poder do exército alemão. Porém, as suas opiniões começaram a mudar ao observar a política alemã nos Balcãs e noutras regiões e que o alarmaram. Assim, começou a ver a Alemanha como uma ameaça ao equilíbrio europeu, e ainda antes da Grande Guerra ter começado, já compreendia que a Inglaterra deveria apoiar a França em caso de ataque alemão.

Em novembro de 1918, Churchill acusava a Alemanha como culpada pela guerra que se havia sucedido e a necessidade das suas colónias lhe serem retiradas, assim como o território da Alsácia-Lorena, que deveria ser devolvido a França. Churchill não teve um papel direto na conferência de paz que se seguiu, mas, ainda assim, argumentou contra a ideia de que a Alemanha deveria ser obrigada a cobrir todas as despesas da guerra, tendo sido contra este acordo punitivo que só iria aumentar e intensificar o sentimento de injustiça e humilhação da Alemanha, levando a possíveis intenções vingativas.

Em março de 1920, Churchill pressionou Lloyd George (primeiro-ministro britânico na época) a realizar uma revisão do tratado em consulta com "uma nova Alemanha, convidada como parceiro igual na reconstrução da Europa".

Na Conferência Imperial em Londres, em julho de 1921, Churchill, no cargo de Secretário de Estado das Colónias, demonstrou ser fortemente a favor à criação de um tratado entre a Inglaterra e a França, de modo a proteger esta última de possíveis novas agressões, tendo argumentado que não era algo incompatível com o grande objetivo de paz na Europa.

"Um compromisso com a França, declarou ele na conferência, «não está relacionado com o triunfo militarista de um conjunto de nações sobre outro, mas visa inteiramente, na minha opinião, o apaziguamento e a consolidação da família europeia»."

Contudo, a Conferência não apoiou esta questão.

Ainda relativo à questão alemã, em 1924, Churchill já demonstrava compreender os perigos de tratar a Alemanha como um pária devido aos ressentimentos por parte destes como apresenta um artigo apelidado: Shall We All Commit Suicide? no qual Churchill alude aos sentimentos mais ferozes do povo alemão com desejos de uma guerra que os liberte ou na qual se possam vingar, prevendo assim, o que viria a acontecer poucos anos mais tarde em 1939 com a deflagração da Segunda Guerra Mundial.

"Os enormes contingentes de jovens alemães que crescem até a idade adulta militar ano após ano são inspirados pelos sentimentos mais ferozes e a alma da Alemanha arde com sonhos de uma Guerra de Libertação ou Vingança."

Ao assumir o cargo de Primeiro-Ministro em 1940, vai demonstrando, através dos seus discursos, a necessidade do povo britânico se erguer contra os inimigos nazis e a terem esperança, recusando-se a aceitar a derrota ou a negociação com a Alemanha nazi. Para além disso, especialmente no início da guerra, a Inglaterra era a única a opor-se ativamente contra Hitler. Assim sendo, Churchill teve um papel deveras relevante na resistência britânica durante a Segunda Guerra Mundial.

Segundo o historiador Ian S. Wood, nas Conferências de Yalta e Potsdam, Churchill pouco pôde fazer relativamente à divisão efetiva da Alemanha que ficaria desprovida de território e de população do Leste. Todavia, ele considerava que pelo menos a parte Ocidental Alemã deveria ter um papel num qualquer movimento para melhores e mais estreitas relações políticas e económicas entre as democracias europeias.


Foi ainda dito que: "Dado o quanto de sua vida foi dedicada ao combate mortal contra eles, a determinação de Churchill em trazer os alemães de volta ao rebanho tão cedo foi um monumento imponente à sua magnanimidade"


Konrad Adenauer, político alemão cristão-democrata que foi Chanceler da República Federal da Alemanha (1949-1963) e que promoveu a cooperação europeia e a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, conheceu Churchill no ano de 1948 no Congresso de Haia considerado o primeiro congresso europeu. Adenauer tinha admiração por Churchill devido aos seus discursos pró-europeus proferidos em anos anteriores. Porém, passados 3 anos, quando Churchill havia sido reeleito para primeiro-ministro, Adenauer tinha as suas dúvidas relativamente ao entendimento de Churchill da complexidade da política europeia. Este sentia que Churchill ainda estava preocupado com a Europa das Grandes Potências enquanto na visão de Adenauer, o que era realmente importante era o estabelecimento de relações integradas e de cooperação. Após o encontro de ambos em Downing Street em outubro de 1951, Adenauer ficou com a impressão de que Churchill via os europeus somente como bons vizinhos e não via os ingleses como uma parte integrante desse todo.

Ainda assim, Adenauer aceitou todos os mecanismos de integração que foram oferecidos como por exemplo o apoio de Churchill para que a Alemanha Ocidental fosse membro do Conselho da Europa.

Outro tema relevante é a questão da NATO. Para contextualizarmos, a NATO corresponde a uma aliança intergovernamental de cariz militar baseada no Tratado do Atlântico Norte assinado em 1949. Anthony Eden (primeiro-ministro britânico de 1955-1957), com o apoio de Churchill, conseguiu assegurar o acordo francês à adesão da Alemanha Ocidental à NATO, desde que esta última incorporasse totalmente as suas forças na NATO e que renunciasse a qualquer direito a armas nucleares, sendo que seria crucial para os acordos de Paris celebrados em maio de 1955, a permanência militar da Inglaterra na Alemanha Ocidental.

Ainda que o feito da adesão da Alemanha Ocidental tenha sido alcançado através da diplomacia de Eden, Churchill ainda teve um importante papel de contribuição, através de um telegrama por ele enviado a Adenauer em 1954 que expressava a necessidade da contribuição da Alemanha Ocidental para a NATO ser dentro de determinados limites aceitáveis para os restantes membros. Para além disso, na visita de Adenauer a Londres em outubro de 1951, Churchill deu-lhe garantias firmes de que a Grã-Bretanha nunca negociaria sobre a Alemanha Ocidental pelas costas, sendo isto relevante devido às inseguranças de Adenauer de que as grandes potências usassem a Alemanha Ocidental como um instrumento de negociação na busca de um acordo para neutralizar a Guerra Fria.

No entanto, aquando da morte de Estaline, Churchill respondeu ao ocorrido com um importante discurso no Parlamento onde destacou a necessidade de uma cimeira com a nova liderança Soviética e ainda enfatizou a importância de garantir a segurança russa contra a Alemanha. Adenauer reagiu com preocupação e atribuiu esta mudança de pensamento a um "declínio no julgamento induzido pela idade e pela saúde debilitada".

A relação política entre Churchill e a Alemanha foi complexa na medida em que a Alemanha foi tida como responsável por duas grandes guerras mundiais e vista como o inimigo, mas que após esse período se revelou uma parceira por uma causa comum.

Por sua vez a França é um país que Churchill conhece melhor e com a qual tem mais afinidade, bastante associado pela sua admiração pela cultura e história francesa. Porém, esta afinidade seria testada pelas negociações complicadas entre ele e Charles de Gaulle (presidente da República Francesa de 1944-1946) tanto durante a Segunda Guerra como no pós-guerra.

No período pós-guerra, Churchill realizou o seu discurso na Universidade de Zurique onde apelou à criação dos "Estados Unidos da Europa" transmitindo a ideia de uma Europa Unida. De Gaulle reagiu a este discurso argumentando a necessidade da França e Grã-Bretanha serem membros fundadores deste projeto europeu, sendo que o receio dos franceses, nesta época ainda tão recente ao fim da Segunda Guerra, seria uma Alemanha rejuvenescida que dominaria qualquer tipo de estrutura europeia federal. Para de Gaulle, esta era uma ideia ainda prematura para ser discutida "sem um acordo prévio real sobre a ocupação a longo prazo da Alemanha, bem como o controlo dos seus recursos industriais".

Em maio de 1948 deu-se o Congresso de Haia, tendo por base uma ideia de Europa Unida, presidido por Churchill e tendo de Gaulle como membro de honra. De Gaulle aludiu no seu discurso a uma cooperação europeia estar dependente de "algum sacrifício ou fusão da soberania nacional" 12por parte daqueles que a apoiavam.

Assim, destacamos como Churchill estabeleceu relações diplomáticas entre as duas potências europeias, procurando, por um lado, apoiar e ser aliada da França em épocas de guerra; e por outro, ver a Alemanha como uma parceira na maior cooperação europeia.

Discurso na Universidade de Zurique

No dia 19 de setembro de 1946, Churchill proclamou um discurso na Universidade de Zurique que teve grande destaque e que ainda nos dias de hoje é mencionado pela importância que tem ao ser visto como um precursor àquilo que foi o processo de integração europeia e a criação da União Europeia.


"Este (discurso) marcou o início do processo pós-guerra de integração europeia e criou os alicerces de uma das mais bem-sucedidas invenções de cooperação pacifica na história da humanidade: a União Europeia" 


Logo nas primeiras frases do seu discurso, Churchill afirma que pretende falar da Europa, continente este que considera ser nobre pelas grandes qualidades que possui: ser o lar de vários povos, da fundação da fé cristã, da origem da maioria das culturas, artes, filosofia e ciência, tanto do mundo antigo como moderno. Porém foi também na Europa onde germinaram várias disputas nacionalistas por nações que pretendiam a obtenção do poder e que assim levaram à destruição da paz e à deterioração das esperanças de toda a humanidade. Churchill coloca em questão a hipótese da Europa se unir de novo e que deste modo, não haveria limite à felicidade, prosperidade e glória que a sua população iria usufruir

Logo nas primeiras frases do seu discurso, Churchill afirma que pretende falar da Europa, continente este que considera ser nobre pelas grandes qualidades que possui: ser o lar de vários povos, da fundação da fé cristã, da origem da maioria das culturas, artes, filosofia e ciência, tanto do mundo antigo como moderno. Porém foi também na Europa onde germinaram várias disputas nacionalistas por nações que pretendiam a obtenção do poder e que assim levaram à destruição da paz e à deterioração das esperanças de toda a humanidade. Churchill coloca em questão a hipótese da Europa se unir de novo e que deste modo, não haveria limite à felicidade, prosperidade e glória que a sua população iria usufruir.

Com este excerto Churchill pretende demonstrar como a Europa tanto pode ser um território que acarreta com a história e com tantos contributos que a Humanidade foi criando e desenvolvendo, mas é também um local marcado pela devastação e destruição que o próprio Homem gera, apresentando como solução a união da Europa.


"I wish to speak about the tragedy of Europe, this noble continent, the home of all the great parent races of the Western world, the foundation of Christian faith and ethics, the origin of most of the culture, arts, philosophy and science both of ancient and modern times. If Europe were once united in the sharing of its common inheritance there would be no limit to the happiness, prosperity and glory which its 300 million or 400 million people would enjoy. Yet it is from Europe that has sprung that series of frightful nationalistic quarrels, originated by the Teutonic nations in their rise to power, which we have seen in this 20th century and in our own lifetime wreck the peace and mar the prospects of all mankind."


Churchill continua o seu discurso ao fazer referência à recuperação dos Estados europeus face à destruição causada pela Segunda Guerra Mundial. Este afirma que os Estados mais pequenos tiveram uma boa recuperação, ao contrário das áreas mais vastas que apresentam populações atormentadas, esfomeadas, desnorteadas e esgotadas que esperam nas ruínas das suas casas por uma nova forma tirania ou terror. Faz ainda referência às "raças Germânicas" que se destruíram umas às outras e espalharam o caos. Ele afirma que se não fosse pelos EUA terem percebido que a ruína ou escravização da Europa também se iria estender a eles próprios e não tivessem ajudado os europeus, Churchill assegura que a "Idade das Trevas" regressaria, e que apesar desta ajuda americana, ainda podem regressar.


"What is this plight to which Europe has been reduced? Some of the smaller states have indeed made a good recovery, but over wide areas are a vast, quivering mass of tormented, hungry, careworn and bewildered human beings, who wait in the ruins of their cities and homes and scan the dark horizons for the approach of some new form of tyranny or terror. Among the victors there is a Babel of voices, among the vanquished the sullen silence of despair. That is all that Europeans, grouped in so many ancient states and nations, and that is all that the Germanic races have got by tearing each other to pieces and spreading havoc far and wide. Indeed, but for the fact that the great republic across the Atlantic realised that the ruin or enslavement of Europe would involve her own fate as well, and stretched out hands of succour and guidance, the Dark Ages would have returned in all their cruelty and squalor. They may still return."

Na seguinte passagem do seu discurso, Churchill aponta para um "remédio" que se fosse adotado pela grande maioria das pessoas em várias regiões poderia transformar a Europa, ou a maioria dela, num território livre e feliz, dando a Suíça como exemplo naquilo que a Europa se poderá vir a tornar. Este remédio ele diz tratar-se da recriação da família europeia e dotá-la de uma estrutura sob a qual se possa viver em paz, segurança e liberdade. Assim diz: "temos de construir uma espécie de Estados Unidos da Europa" e argumenta essa necessidade ao afirmar que só desta forma irão centenas de milhões de trabalhadores conseguir recuperar as alegrias e esperanças que fazem a vida valer a pena. Para Churchill, o processo é simples e basta a determinação de centenas de milhões de pessoas em fazer a coisa certa e receberem bênçãos por isso.

"Yet all the while there is a remedy which, if it were generally and spontaneously adopted by the great majority of people in many lands, would as by a miracle transform the whole scene and would in a few years make all Europe, or the greater part of it, as free and happy as Switzerland is today. What is this sovereign remedy? It is to recreate the European fabric, or as much of it as we can, and to provide it with a structure under which it can dwell in peace, safety and freedom. We must build a kind of United States of Europe. In this way only will hundreds of millions of toilers be able to regain the simple joys and hopes which make life worth living. The process is simple. All that is needed is the resolve of hundreds of millions of men and women to do right instead of wrong and to gain as their reward blessing instead of cursing."

De seguida, enaltece o trabalho que tem sido feito para contribuir para a paz e maior união da Europa ao mencionar os esforços da União Pan-Europeia que tanto deve a Aristid Briand; aludindo também à Liga das Nações, organização internacional que nasceu das esperanças do pós Primeira Guerra Mundial e que fracassou não pelos seus princípios ou conceções, mas sim pelo abandonamento dos mesmos por parte dos Estados que os trouxeram à existência. Assim, segundo Churchill, "este desastre não pode ser repetido".


"Much work has been done upon this task by the exertions of the Pan-European Union, which owes so much to the famous French patriot and statesman Aristide Briand. There is also that immense body which was brought into being amidst high hopes after the First World War - the League of Nations. The League did not fail because of its principles or conceptions. It failed because those principles were deserted by those states which brought it into being, because the governments of those states feared to face the facts and act while time remained. This disaster must not be repeated. There is, therefore, much knowledge and material with which to build and also bitter, dearly bought experience to spur."

Churchill procede ao demonstrar como uma organização regional da Europa não deve ser vista como uma razão de conflito para com a Organização das Nações Unidas. Pelo contrário, ele acredita que a organização mundial beneficia da existência de "agrupamentos naturais" dado que estes não enfraquecem a organização mundial, mas sim a fortalecem. Ainda refere alguns destes agrupamentos como o que existe no Hemisfério Ocidental, e a Inglaterra com a Commonwealth. "Eles são de facto o seu principal suporte". Questiona-se ainda sobre porque é que não haveria de haver um grupo Europeu que desse sentido a um maior patriotismo e a cidadania comum, demonstrando o grande potencial do continente europeu que parece estar esquecido. Segundo ele, este grupo europeu, deveria existir de modo a ajudar a moldar o destino da Humanidade e para isso é preciso um "ato de fé" por parte da população europeia que é tão culturalmente diversa.


"There is no reason why a regional organization of Europe should in any way conflict with the world organization of the United Nations. On the contrary, I believe that the larger synthesis can only survive if it is founded upon broad natural groupings. There is already a natural grouping in the Western Hemisphere. We British have our own Commonwealth of Nations. These do not weaken, on the contrary they strengthen, the world organization. They are in fact its main support. And why should there not be a European group which could give a sense of enlarged patriotism and common citizenship to the distracted peoples of this mighty continent? And why should it not take its rightful place with other great groupings and help to shape the honorable destiny of man? In order that this may be accomplished there must be an act of faith in which the millions of families speaking many languages must consciously take part."


Na seguinte parte do discurso, o orador confirma a Alemanha como culpada pelas duas Guerras Mundiais, com as suas pretensões de domínio de vários territórios a nível mundial, demonstrando a enorme crueldade dos crimes e massacres que foram cometidos. Assim, afirma que os culpados devem ser punidos: a Alemanha deve ser privada do poder de se rearmar e de travar outra guerra. Porém assim que tudo isso for feito, deve de haver um "ato abençoado de esquecimento" de modo a que se possa ultrapassar os ódios do passado e olhar para um futuro diferente. Portanto, Churchill garante que se a Europa quer ser salva, deve de haver um ato de fé na família europeia e de esquecimento dos acontecimentos cruéis do passado.


"We all know that the two World Wars through which we have passed arose out of the vain passion of Germany to play a dominating part in the world. In this last struggle crimes and massacres have been committed for which there is no parallel since the Mongol invasion of the 13th century, no equal at any time in human history. The guilty must be punished. Germany must be deprived of the power to rearm and make another aggressive war. But when all this has been done, as it will be done, as it is being done, there must be an end to retribution. There must be what Mr Gladstone many years ago called a "blessed act of oblivion". We must all turn our backs upon the horrors of the past and look to the future. We cannot afford to drag forward across the years to come hatreds and revenges which have sprung from the injuries of the past. If Europe is to be saved from infinite misery, and indeed from final doom, there must be this act of faith in the European family, this act of oblivion against all crimes and follies of the past. Can the peoples of Europe rise to the heights of the soul and of the instinct and spirit of man? If they could, the wrongs and injuries which have been inflicted would have been washed away on all sides by the miseries which have been endured. Is there any need for further floods of agony? Is the only lesson of history to be that mankind is unteachable? Let there be justice, mercy and freedom. The peoples have only to will it and all will achieve their heart's desire."


Algo que pode ter surpreendido o público ao ouvir o discurso de Churchill é a sua afirmação de que o primeiro passo na recreação da família europeia deve ser a parceria entre a França e a Alemanha, pois só deste modo a França consegue recuperar a liderança cultural e moral da Europa e porque segundo ele, não é possível o renascimento da Europa sem uma Alemanha e França "espiritualmente grande(s)". Churchill explica como seria a estrutura dos "Estados Unidos da Europa": seria de tal forma que tornaria a força individual dos Estados menos importante. As nações menores iriam ter o mesmo valor que as maiores devido à sua contribuição pela causa comum aos estados europeus. Os antigos Estados e principados da Alemanha poderiam livremente unir-se num sistema federal, podendo tornar-se membros dos Estados Unidos da Europa.


"I am now going to say something that will astonish you. The first step in the re-creation of the European family must be a partnership between France and Germany. In this way only can France recover the moral and cultural leadership of Europe. There can be no revival of Europe without a spiritually great France and a spiritually great Germany. The structure of the United States of Europe will be such as to make the material strength of a single State less important. Small nations will count as much as large ones and gain their honour by a contribution to the common cause. The ancient States and principalities of Germany, freely joined for mutual convenience in a federal system, might take their individual places among the United States of Europe."


Churchill avisa: "o tempo pode ser curto", pois ainda que a guerra tenha cessado os perigos não acabaram e assim, deve-se começar a formar esta nova forma de integração das nações europeias o quanto antes. Churchill refere-se à atual (para a época em questão) proteção da Europa pela bomba atómica que é somente detida pelos EUA, mas vê essa questão com grande perigo na medida em que a bomba atómica pode, ao longo dos anos, difundir-se por outras nações e que a sua utilização pode levar ao fim da civilização e do próprio planeta.


"But I must give you warning, time may be short. At present there is a breathing space. The cannons have ceased firing. The fighting has stopped. But the dangers have not stopped. If we are to form a United States of Europe, or whatever name it may take, we must begin now. In these present days we dwell strangely and precariously under the shield, and I even say protection, of the atomic bomb. The atomic bomb is still only in the hands of a nation which, we know, will never use it except in the cause of right and freedom, but it may well be that in a few years this awful agency of destruction will be widespread and that the catastrophe following from its use by several warring nations will not only bring to an end all that we call civilization but may possibly disintegrate the globe itself."


Para concluir o seu discurso, Churchill resume as suas proposições: "o nosso objetivo constante deve ser construir e fortalecer a Organização das Nações Unidas"; deve-se também de recriar a família europeia numa estrutura regional apelidada por Churchill de Estados Unidos da Europa e o primeiro passo prático será a formação de um Conselho da Europa. Afirma que se num primeiro momento nem todos os estados europeus estiverem dispostos a ingressar nesta união, deve-se ainda assim reunir aqueles que querem. A França e a Alemanha devem de assumir a liderança em conjunto neste importante passo para uma nova Europa. E finaliza ao sublinhar que a Grã-Bretanha, a Commonwealth, os EUA e possivelmente a URSS deverão ser amigos e patrocinar esta nova Europa. Termina com a frase "Let Europe arise!" apelando para que as pessoas, os Estados europeus, e a nível mundial, permitam o reerguer do continente europeu.


"I now sum up the propositions which are before you. Our constant aim must be to build and fortify the United Nations Organization. Under and within that world concept we must recreate the European family in a regional structure called, it may be, the United States of Europe, and the first practical step will be to form a Council of Europe. If at first all the States of Europe are not willing or able to join a union we must nevertheless proceed to assemble and combine those who will and who can. The salvation of the common people of every race and every land from war and servitude must be established on solid foundations, and must be created by the readiness of all men and women to die rather than to submit to tyranny. In this urgent work France and Germany must take the lead together. Great Britain, the British Commonwealth of Nations, mighty America - and, I trust, Soviet Russia, for then indeed all would be well - must be the friends and sponsors of the new Europe and must champion its right to live. Therefore I say to you «Let Europe arise!»."


Após a análise do discurso, considero que este revela as fortes intenções/ ideologias de Churchill em ver a Europa saída das suas ruínas e para que se volte a erguer tendo em conta todo o potencial que esta apresenta. Apela profundamente à criação de uma organização que englobe os vários Estados europeus de modo a tornar a Europa mais forte, a recuperar mais rapidamente das brutais consequências sociais, económicas, financeiras e estruturais provocadas pelas Grandes Guerras, e a impedir o ressurgimento de guerras e conflitos – os Estados devem assim atuar de modo a cooperarem entre si pela esperança num melhor futuro para o continente.

Congresso de Haia e a criação do Conselho da Europa

O Congresso de Haia realizado no ano de 1948 entre os dias 7 a 10 de maio, correspondeu a uma conferência internacional realizada em Haia nos Países Baixos, sob a presidência de Winston Churchill. O Congresso teve como objetivo a reflexão e a apresentação de propostas sobre formas de cooperação no continente europeu.

Este evento foi organizado por personalidades de destaque nomeadamente políticos, académicos e ativistas que visavam uma Europa mais unida e a impedir o surgimento de novos conflitos que pusessem em causa a paz no continente.

O principal resultado do Congresso foi a criação do Conselho da Europa – uma organização intergovernamental criada em 1949 que promove a proteção dos Direitos Humanos através da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, e a proteção do Estado de Direito e da Democracia. Esta organização conta atualmente com 46 membros (a maioria dos Estados europeus).

A primeira reunião do Conselho contou com a participação de Churchill assim como de Konrad Adenauer e Robert Schuman entre outros 10 líderes.

Assim destaca-se a participação de Churchill no Congresso de Haia, tendo esta sido realizada sob a sua presidência e a sua presença na primeira reunião do Conselho da Europa, sendo ambas de relevância e destaque na busca e promoção de cooperação europeia.

"With Europe, but not of it"

Apesar de à primeira vista Churchill dar a entender uma visão de integração de "todas" as nações europeias e que só deste modo se pode alcançar a paz e prosperidade no continente europeu, há quem possa defender que Churchill não pretendesse seguir inteiramente esta visão de uma Europa inteiramente unida e com todas as nações europeias a pertencer ao seu apelidado "Estados Unidos da Europa".

No ano de 1930, Churchill via a política externa britânica completamente direcionada e focada no Império Britânico e da Commonwealth, dado que nesta década o Império Britânico ainda era "a mais poderosa entidade da política global, detentora, de longe, do mais vasto território geográfico". Deste modo, uma maior estabilidade,desenvolvimento e prosperidade na Europa poderia ser uma mais-valia e uma ajuda na manutenção da posição a nível internacional da Grã-Bretanha, tendo Churchill escrito:


"Qualquer passo que tenda a tornar a Europa mais próspera e poderosa é favorável aos interesses britânicos".


Assim, ainda que a Europa progredisse para um continente mais unido pelos objetivos de paz e prosperidade, Churchill não via a Grã-Bretanha a integrar-se nesse meio e a aderir a uma união federal como um mero membro.


"Temos o nosso próprio sonho e a nossa própria função. Estamos com a Europa, mas não somos parte dela. Estamos ligados, mas não englobados. Estamos interessados e associados, mas não integrados."


Deste modo, o papel da Grã-Bretanha seria a ajuda no ressurgimento da Europa, como que um parceiro ou patrocinador externo.


"sem inveja, supervisionaria a sua garantida e consistente aproximação à riqueza em massa; estando sempre muito consciente de que cada passo rumo a uma coesão europeia, que seja benéfico ao bem-estar geral, fará de nós seus parceiros nessa boa fortuna e de que cada tendência sinistra será contida ou corrigida pela nossa força unida"


Nesta época, a política externa britânica poderia ser explicada através dos "três círculos". O primeiro corresponderia ao Império Britânico e à Commonwealth, abrangendo as possessões coloniais britânicas e a família de nações independentes que tinham aderido à Coroa britânica, nomeadamente o Canadá, a Austrália, Nova Zelândia e África do Sul. O segundo círculo seria a relação privilegiada da Grã-Bretanha com os Estados Unidos da América. E por fim o terceiro, representaria os Estados europeus. Desta maneira, a Grã-Bretanha deveria estar posicionada no meio e na interseção de todos os círculos, desempenhando assim um papel em todos eles.

Este modelo dos três círculos de Churchill era bastante evidente naquilo que era a sua perceção da posição da Grã-Bretanha a nível mundial:


"Não pertencemos a um único continente, mas a todos. Não a um hemisfério, mas a ambos; tanto ao Novo Mundo como ao Velho. O Império Britânico é uma potência europeia líder. É uma enorme e crescente potência americana. É uma potência australasiana. É uma das maiores potências asiáticas. É a potência africana líder. Há séculos que a Grã-Bretanha vem sendo o paladino comprovado e aceite da liberdade europeia. Ela é o centro e a cabeça da Commonwealth Britânica de Nações. É uma parceira igualitária no mundo de língua inglesa."


Podemos assim afirmar que a posição de Churchill numa maior união e integração da Europa pode ser algo bastante contraditório e controverso ao analisarmos o seu antigo e corrente discurso relativo à grandeza da Grã-Bretanha e que não deve ser assumida como um simples membro às restantes nações da Europa, já que esta abrange largos horizontes que se expandem para além do continente que é para com estes, comum. Isto nos demonstram as palavras de Klos: "A perspetiva de Churchill acerca da excecional posição da Grã-Bretanha é muitas vezes entendida como o primeiro sinal denunciador da falta de franqueza da sua cruzada tardia por uma Europa unida".

Mais tardiamente e com o fim da Segunda Guerra Mundial, Churchill realiza o seu discurso na Universidade de Zurique, e como já analisámos, encontra-se repleto de mensagens de união e de colaboração europeia, porém, não deixa de ser pertinente de referir a ideia de que Churchill coloca a Grã-Bretanha numa posição de "apoiante" externo dos Estados Unidos da Europa, posição esta que seria igual à que os EUA por exemplo teriam, mas não afirmando a presença direta e a possibilidade da Grã-Bretanha vir a tornar-se esta um próprio membro do projeto que o próprio Churchill pretende que se estabeleça. Transmite assim uma sensação de distanciamento face aos restantes Estados europeus que se devem unir, deixando a Grã-Bretanha de fora da participação direta neste projeto dito europeu.

Também alguns colegas de Churchill pró-europeus como Harold Macmillan, consideravam ser importante que Churchill se focasse em iniciativas essenciais para unir a Europa, tal como a iniciativa da Declaração Schuman apelando à criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, e que a Grã-Bretanha tomasse assim, um papel de maior liderança.

Porém, no Conselho da Europa, Churchill declarou como "o povo britânico nunca aceitaria que um organismo europeu supranacional pudesse ter o poder de encerrar as suas minas e siderúrgicas"19. Também relativo à ideia de adesão a um exército europeu,Anthony Eden declarou numa conferência de empresa em Roma que o Governo de Churchill não iria participar neste projeto. Isto demonstra um retrocesso naquilo que poderia ser um maior compromisso britânico em projetos europeus.

A diminuição do entusiasmo em Churchill em projetos de integração europeus não se pode afirmar que tenham sido pelo seu envelhecimento, dado que este continuava a trabalhar arduamente na relação especial entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos da América ou pela procura por um diálogo pessoal com o líder da URSS. "Foram as suas prioridades que mudaram quando formou o seu segundo governo em 1951, ou talvez tenham voltado a ser o que sempre foram."

Macmillan ainda demonstrou a sua tristeza e desapontamento ao testemunhar o afastamento de Churchill relativamente à menor relevância dada à conceção de uma Europa mais unida: "(Churchill) tinha agora abandonado ou adiado qualquer esforço para concretizar a sua conceção europeia".

Podemos também referir novamente a perceção de Adenauer relativamente a Churchill de que este via os europeus como "vizinhos" e não encarava os ingleses como parte que integrasse esse todo.

Embora Churchill tenha elaborado diversos discursos com ideias pró-Europeias, deve-se destacar que, na prática, este não se demonstrou empenhado em participar em iniciativas relevantes para aquilo que eram as suas ideias presentes no tão celebre discurso de Zurique, a favor do movimento europeu de maior união e integração.


"Churchill (…) e o seu entusiasmo pela Europa, embora expresso de forma eloquente em alguns dos seus primeiros discursos do pós-guerra, não se converteu em quaisquer iniciativas políticas substanciais, quer como líder do seu partido na oposição, quer como primeiro-ministro novamente depois de outubro de 1951."

Conclusão

Ao termos analisado uma parte do percurso político de Churchill, das suas ideias, dos seus feitos, e objetivos e tendo em consideração a desenvoltura deste trabalho de pesquisa que tem por base responder à questão inicial: "Terá Winston Churchill contribuído para a Integração Europeia?" podemos destacar duas possíveis respostas: "Sim, Churchill contribuiu"; ou então "Churchill não contribuiu".

Para a primeira possível resposta, poderíamos argumentar com vários momentos de destaque, tais como: a elaboração de vários discursos a favor de uma Europa mais unida e integrada, com principal destaque para o discurso na Universidade de Zurique apelando à criação dos "Estados Unidos da Europa". Podemos também mencionar o facto de ter ocorrido o Congresso de Haia relativo à maior cooperação e integração europeia pela "iniciativa de Churchill"23, tendo este Congresso levado à fundação do Conselho da Europa que se traduz na maior organização intergovernamental europeia, também esta contando com a participação de Churchill. E o empenho de Churchill numa reconciliação entre as potências europeias França e Alemanha aquando do final da Segunda Guerra Mundial.

Podemos também considerar a visão da União Europeia relativa ao papel de Churchill na integração europeia, dado que a própria Comissão Europeia considera Churchill como um "pioneiro da União Europeia" afirmando que o mesmo "defendia a ideia de integração europeia e foi um dos primeiros a apelar à criação dos «Estados Unidos da Europa»"24 e que "tornou-se um militante ativo da causa europeia".

Ainda que esta abordagem nos pareça convincente, devemos de analisar o porquê da segunda resposta à pergunta inicial ser também possível. No subcapítulo deste trabalho intitulado "With Europe, but not of it" é explorada a relação de Churchill com a Europa e destaca-se assim o facto de este ter uma visão da Grã-Bretanha com um espectro mais abrangente do que somente fazer parte da Europa. A Grã-Bretanha tinha mais pretensões do que somente a integração e a união com as restantes nações europeias pois, considerava também relevante, ou ainda mais relevante, cultivar as relações com os EUA e com a Commonwealth. Também no discurso em Zurique já referido, Churchill aborda o papel da Grã-Bretanha como um apoiante e patrocinador do projeto de integração europeia, mas não houve nenhum momento em que admitisse a mesma como possível membro/ participante direto no projeto. Relativamente à possível adesão à CECA e a um exército europeu, o Governo britânico não foi a favor.

Tendo todos estes aspetos em atenção, podemos afirmar que Winston Churchill contribuiu em alguns aspetos para o começo de uma integração europeia, mas ficou muito aquém da verdadeira integração que o Reino Unido poderia ter tido no espetro europeu se tivesse havido uma maior preocupação e interesse em que este ingressa-se, no Governo de Churchill, em projetos de verdadeiro destaque para a integração da Europa como o projeto da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço que viria a dar lugar, décadas mais tarde, à União Europeia.



Bibliografia e Webgrafia

Haffner, Sebastian. 1967. Winston Churchill, Prefácio Rui Ramos. Editorial sol 90, edição 2011, Expresso

Churchill, Winston. Os Meus Primeiros Anos. Guerra e Paz

S. Wood, Ian. Churchill. British History in Perspective

Klos, Felix. Unir a Europa: A última Batalha de Churchill, 2016

Neutel, Fernanda. A Construção da União Europeia. Edições sílabo, 1ª edição, maio de 2019

Horne, Alistair. Macmillan 1894-1956. London 1988

Schwarz, Hans Peter. Churchill and Adenauer. Ilford 1994

Gilbert, Martin. Winston S. Churchill: Never Despair, 1945-1965. RosettaBooks

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Comissão Europeia. "Winston Churchill: o apelo à criação dos Estados Unidos da Europa". Disponível em: https://european-union.europa.eu/system/files/2021-06/eu-pioneers-winston-churchill_pt.pdf Acedido em: 21/11/2023

União Europeia. "Konrad Adenauer: um democrata pragmático e um unificador incansável" Disponível em: https://european-union.europa.eu/principles-countries-history/history-eu/eu-pioneers/konrad-adenauer_pt Acedido em: 25/11/2023

Council of Europe Portal. "Pais Fundadores" Disponível em: https://www.coe.int/pt/web/about-us/founding-fathersAcedido em: 1/12/2023

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República Portuguesa Negócios Estrangeiros. "União Europeia" Disponível em: https://portaldiplomatico.mne.gov.pt/relacoesbilaterais/historia-diplomatica?view=article&id=519:uniao-europeia&catid=119 Acedido em: 05/12/2023

Alice Tidey. "O que é o Conselho da Europa? Não tem nada a ver com a UE" Disponível em: https://pt.euronews.com/my-europe/2023/05/15/o-que-e-o-conselho-da-europa-nao-tem-nada-a-ver-com-a-ue Acedidoem: 29/11/2023



[Este ensaio é uma adaptação de um trabalho para a Unidade Curricular de Integração Europeia: Teorias e Instituições]

Núcleo de Estudos Europeus da Universidade de Lisboa
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