The Girlfriend

27-10-2025

Nos últimos anos, a Amazon Prime tem vindo a reforçar a sua aposta em dramas psicológicos densos e provocadores. "The Girlfriend" é um exemplo perfeito disso, uma minissérie lançada a 10 de setembro de 2025, adaptada do romance homónimo de Michelle Frances, a produção destaca elementos como a manipulação emocional, ciúme e choque entre classes.

Ver esta série foi algo inquietante. Desde o primeiro episódio que somos bombardeados de elementos que nos levam para um território inicial, o (aparente) perfeito e o perigoso, a mãe e a parceira. A história começa com Laura Sanderson, uma mulher bem-sucedida, elegante, com uma vida (aparentemente) perfeita. Este equilíbrio começa a ruir quando o seu filho, Daniel, apresenta aos pais a nova namorada Cherry, uma jovem carismática e modesta. Em "The Girlfriend" somos convidados a questionar todo o tipo de atos e comportamentos das personagens.

No início, tudo parece ser inocente até Laura começar a desconfiar das intenções de Cherry, será que é quem diz ser? Será que Laura é apenas possessiva e desconfiada? Incapaz de aceitar que o seu filho já é crescido? É precisamente neste ambiente que é construído o universo da série e o seu fascínio. Durante todos os episódios somos impulsionados pelas duas versões contraditórias destas duas mulheres que detêm um poder imenso. Laura com a necessidade de proteção, o perfeccionismo e Cherry com a ambição, o desejo de ultrapassar fronteiras.

Num momento, Cherry aparenta ser uma vítima de preconceito e Laura como uma mãe obsessiva e controladora, no entanto, temos o lado estratega da jovem adulta e um amor maternal da mãe preocupada com o seu filho. Esta ambiguidade é o que torna a série tão viciante, tornando impossível de desviar o olhar, com a preocupação de perder mais um detalhe. Ambas as personagens estão assentes em inseguranças, passado e desejo e necessidade de aprovação.

Visualmente, a estética suave e luxuosa contrasta com um submundo de violência emocional. As casas luxuosas e os jantares cuidadosamente decorados servem para reforçar o contraste de visões e do mundo das protagonistas. A realização, que é dividida por Robin Wright, atriz que trouxe à vida Laura Sanderson e Andrea Harkin, mantém um ritmo que aumenta a tensão sem cair no exagero, embora às possa parecer forçado por andar à volta em círculos que nunca realmente acabam. As interpretações de Robin Wright (Laura) e Olivia Cooke (Cherry) são o fio condutor da narrativa. Enquanto Robin consegue transmitir com subtileza uma mulher que vê o seu mundo ruir, Olivia equilibra o charme e a ambiguidade, deixando-nos ambas sempre em dúvida em relação às suas verdadeiras intenções. Por fim, Laurie Davidson, no papel de Daniel, funciona como um elo entre as duas forças opostas e catalisadoras do conflito.

"The Girlfriend" constrói uma reflexão sobre os limites do amor e confiança: até que ponto é que o que fazemos se baseia no controle e não no amor? É neste tipo de questões que navegamos durante toda a série, sem nenhuma ser realmente respondida a não ser pela nossa interpretação. Nem o concluir da narrativa desperta um real desfecho, mas sim uma nova porta cheia de dúvidas e incertezas vindas deste universo. A culpa, o medo, a manipulação e a dependência caracterizam impecavelmente todo este círculo constante.

Por fim, a natureza humana é refletida plenamente através desta história de obsessão e inveja, o meio entre o afeto e destruição, a procura de poder. Somos recordados de que o verdadeiro perigo não começa de fora, mas sim do que tentamos ofuscar, a culpa que carregamos, o desejo e o silêncio. Um espelho perturbador da ruína que nasce muito lentamente, e que a fissura abre até consumir o homem (ou mulheres neste caso) por completo.

Maria Beatriz Santos


Núcleo de Estudos Europeus da Universidade de Lisboa
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